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Médicos Veterinários

“É urgente fechar cursos [de veterinária] ou limitar o número de inscrições anuais”

"É urgente fechar cursos [de veterinária] ou limitar o número de inscrições anuais"

Fábio Abade dos Santos – mestre em Medicina Veterinária e investigador do INIAV

O Barómetro VETERINÁRIA ATUAL 2022, desenvolvido pela Revista VETERINÁRIA ATUAL durante o mês de fevereiro de 2022, traz-nos dados que têm tanto de prenunciado como de preocupante para a classe médico-veterinária em Portugal.

Começamos por constatar que mais de 22% dos profissionais tem a necessidade de exercer a sua profissão em mais do que um Centro de Atendimento Médico-Veterinário. Há que acreditar que a razão por detrás deste facto não se prende com a vontade de presenciar uma maior diversidade de casos clínicos, nem de melhor “usufruir dos bolinhos trazidos pelos detentores de animais”. Naturalmente que a razão que está na base desta escolha é conseguir uma remuneração mais aceitável, em troca de mais tempo de serviço, comprometendo necessariamente a sua qualidade de vida e a construção de um ambiente familiar equilibrado e saudável.

 

Este último aspeto está totalmente explanado nos dados do mesmo inquérito realizado pela VA que revelam que 2/3 dos profissionais não consegue manter um equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional. Deixemo-nos, pois, de eufemismos. Estas pessoas não conseguem viver, sobrevivem. Nos dias de hoje, um médico veterinário é apenas um burnout vestido de pijama verde. Este paradigma leva-nos necessariamente a um estudo publicado em 2020 pela American Medical Veterinary Association (AMVA), que demonstrou uma probabilidade de suicídio dos médicos-veterinários 3,7 vezes superior à população geral. O mesmo estudo relata que um em cada seis profissionais, já pensou no suicídio. Lembro que este estudo foi realizado nos EUA, onde as condições remuneratórias são totalmente diferentes das portuguesas, para melhor, obviamente.

De 2011 até 2018, passámos de 22 para 59 médicos-veterinários por cada 100 mil habitantes, estimando-se que em duas décadas tenhamos 2,5 vezes mais médicos veterinários por habitante do que os países da Europa com maior PIB.

 

Constatamos ainda que sensivelmente 75% dos profissionais se sentem pressionados na execução das suas tarefas, e insatisfeitos com o ambiente de trabalho. Mesmo que eu não fosse médico veterinário, e fosse, por exemplo, um ilustre padeiro, ao folhear a newsletter da VETERINÁRIA ATUAL e ver os resultados do referido barómetro num ecrã salpicado de farinha, me assustaria o suficiente para deixar queimar o pão no forno. Com isto quero dizer que é absolutamente incompreensível que as autoridades responsáveis pela regulação, formação ou apoio à profissão médico veterinária mantenham um silêncio confrangedor em relação à sua realidade atual.

A solução encontrada nas últimas décadas para contornar a insatisfação dos profissionais na área, é aumentar a oferta de médicos veterinários, contando este retângulo recortado no oeste da Europa, com 8 cursos de mestrado integrado em Medicina Veterinária. Este número serve apenas um propósito: convidar cordialmente profissionais insatisfeitos a sair das clínicas, pois haverá sempre algum, dos 300 jovens profissionais disponíveis anualmente, disposto a aceitar as condições de subemprego, que atinge já cerca de um terço dos profissionais. Não há espaço a negociação de condições na nossa profissão. Obviamente que aqui falo na generalidade dos profissionais, que no fim do dia, é o que importa.

 

De facto, de 2011 até 2018, passámos de 22 para 59 médicos veterinários por cada 100 mil habitantes, estimando-se que em duas décadas tenhamos 2,5 vezes mais médicos veterinários por habitante do que os países da Europa com maior PIB. Perante estes números, apercebemo-nos de outra realidade irónica e contraditória − a quantidade de anúncios de emprego colocados todos os dias nos media, e que se mantêm disponíveis, alguns durante bastante tempo, indicando por um lado uma renovação constante dos postos de trabalho e, por outro, uma dificuldade em contratar. De facto, a geração dos “millenials” enfrenta uma escolha à saída da universidade, a de perseguir o seu sonho de criança, ou desistir da profissão. A segunda, é a escolha cada vez mais frequente.

As universidades portuguesas não preparam os estudantes para a realidade das condições que irão enfrentar.

 

As universidades portuguesas não preparam os estudantes para a realidade das condições que irão enfrentar, talvez por distanciamento dos próprios professores da realidade da clínica de pequenos animais, de resto a primeira escolha da esmagadora maioria dos recém-formados. É urgente fechar cursos ou limitar o número de inscrições anuais. Não para o ano, mas já em setembro de 2022. É que atualmente estamos a formar sensivelmente dois tipos de profissionais: aqueles em que gastamos erário público para irem servir outros países, e os que ficam em Portugal condenados a um futuro precário e incerto.

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