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Animais de companhia

Dia Internacional do Cão-Guia: celebrar os ‘olhos’ de quem mais precisa

Hoje, dia 29 de abril, assinala-se o Dia Internacional do Cão-Guia. Existem em Portugal cerca de 128 duplas ativas de cão-guia/utilizador cego a trabalhar, de acordo com Ana Filipa Paiva, médica veterinária e diretora técnica da Escola de Cães-Guia Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual (ABAADV). Esta instituição particular de solidariedade social, situada no concelho de Mortágua, entre Coimbra e Viseu, é a única escola responsável pela formação de cães-guia do País.

A ABAADV nasceu em 2000, na sequência da candidatura da Escola Profissional Beira Aguieira a um projeto comunitário, iniciado em 1995, e que conseguiu formar dois educadores de cães-guia, organizar uma equipa, adquirir um terreno e construir as instalações da instituição, que se estendem por três blocos e cerca de quatro mil metros quadrados.

O primeiro cão-guia educado e entregue a um cego português, Augusto Hortas, foi a Camila, uma labrador retriever preta, em 1999, quando a escola se encontrava ainda em fase de projeto, assinalando um marco importante na vida desta instituição e na procura de maior autonomia e integração social pela população cega do País.

Desde então, a ABAADV já conseguiu formar 227 duplas de cães-guia/cego e conta com três formadores destes animais, um pré-formador em transição para o cargo de formador, um pré-formador e uma estagiária para o cargo de pré-educadora. A escola é acreditada pela International Guide Dog Federation, sendo sua entidade filiada.

O objetivo da instituição é formar 16 duplas cego/cão-guia por ano, sendo que o processo de educação de cada animal dura “em média 24 a 26 meses”, explica pelo telefone Ana Filipa Paiva à VETERINÁRIA ATUAL. “É uma questão de maturidade comportamental”, garante.

Para entregar 16 animais por ano, a escola trabalha com cerca de 45 cães, desde cachorros em famílias de acolhimento temporário, adultos em formação e reprodutoras. Funcionando numa base de voluntariado, a instituição conta com cerca de 45 a 50 famílias de acolhimento temporário para os cachorros e cadelas reprodutoras.

O custo do treino de cada animal é de cerca de 17 500 euros, embora cada cão-guia seja entregue gratuitamente ao utilizador cego. Este valor cobre as despesas de manutenção da escola, salários dos colaboradores, alimentação, saúde, material e tudo o que for necessário, mas não engloba o precioso trabalho voluntário das famílias de acolhimento temporário.

Os cães-guia da ABAADV nascem na instituição ou no Centro de Reprodução da Federação Francesa de Escolas de Cães-Guia, com o qual a ABAADV realiza trocas de animais para garantir as suas excelentes condições físicas e comportamentais. Estas trocas permitiram, conta a diretora técnica, reduzir drasticamente o número de animais com displasia de anca, por exemplo.

Aos dois meses e meio, os cachorros vão para as suas famílias de acolhimento temporário, de onde passam para os educadores da instituição por volta dos 12 a 14 meses de idade. Durante o treino, vão realizando inúmeros testes até completarem as duas provas finais, nas quais os seus educadores estão de olhos vendados. Passados os testes, são finalmente entregues a um utilizador cego, enfrentando um estágio de transição de 15 dias e uma avaliação de adaptação realizada pela escola cerca de um mês depois, descreve a diretora técnica da ABAADV.

“Para quem passa da bengala para um cão, é muito difícil passar do cão para bengala”, refere Ana Filipa Paiva

Os animais ficam com o seu utilizador, salvo algum imprevisto, até aos 11/12 anos. Quando chega a idade da ‘reforma’, a instituição dá ao utilizador cego a possibilidade de manter o animal, caso este tenha condições para tal, ou então os cães regressam à ABAADV, onde permanecem até ao fim da vida. “Ao contrário do que algumas pessoas pensam erradamente, estes animais não são eutanasiados no final da sua vida de ‘trabalho’”, sublinha Ana Filipa Paiva.

O custo de funcionamento da instituição é suportado maioritariamente pela Segurança Social, sendo que o restante depende da Câmara Municipal de Mortágua e de outras autarquias, bem como de patrocínios e donativos de empresas e particulares, quotas de associados (são cerca de 600 os sócios da instituição pagantes) e ações de angariação de fundos.

Tal como nem todos os treinadores de cães podem treinar cães-guia, nem todos os cães podem servir de guias para utilizadores cegos. O cão-guia ideal tem um temperamento especial, equilibrado, tranquilo e obediente. “Trabalhamos 99,99% com labrador retriever”, garante a diretora técnica da ABAADV, acrescentando que ainda têm em atividade alguns cruzamentos de labrador e golden retriever, oriundos do centro de reprodução francês, bem como um flat-coated retriever. A preferência pelos ‘labradores’, explica Ana Filipa Paiva, deve-se “à sua facilidade de adaptação às muitas transições, porte, estrutura física e saúde, porque não é um cão muito dado a problemas”.

A diretora técnica admite que a capacidade de resposta da instituição para formar cães-guia ainda é superada pela procura. “Vai haver uma altura em que chegaremos a uma ‘velocidade-cruzeiro’, mas ainda não temos técnicos para isso. Temos alertado para a situação nos nossos relatórios anuais e a Segurança Social já ampliou o nosso apoio em 2019.”

Segundo a médica veterinária, a entrega de novos cães é um pouco mais demorada para cegos que fazem o pedido pela primeira vez, porque as substituições (animais que atingem a idade da ‘reforma’, tendo de ser substituídos) têm prioridade relativamente às novas entregas. “Para quem passa da bengala para um cão, é muito difícil passar do cão para bengala”, refere Ana Filipa Paiva.

Mas, ainda mais importante é que o utilizador cego já saiba andar de bengala e reúna condições de orientação e mobilidade na rua antes de começar a utilizar o cão-guia, diz, isto porque “o cão trabalha à ordem”. “Quanto melhores forem as condições de orientação e mobilidade do cego, mais fácil será a adaptação ao cão”, garante.

A simbiose entre esta dupla é tal que “chega uma altura em que os cães sabem se o utilizador vai para o trabalho ou para casa de um amigo, dependendo da roupa que veste”, relata Ana Filipa Paiva. Esta unidade dificulta, por vezes, a entrega do segundo cão, de substituição, dado o entrosamento com o primeiro animal. “Há cegos que nos dizem que não treinámos tão bem o segundo cão”, conta a diretora técnica, rindo, “mas é obviamente uma questão de adaptação”.

Adaptações em tempos de pandemia

A ABAADV faz alertas regulares nas redes sociais para as regras que as pessoas devem adotar perante um cão-guia. “É importante que não se aproximem, não falem, não mexam e não se dirijam ao cão se o encontrarem com o seu utilizador na rua, porque o estão a distrair, colocando o cego em risco, que não sabe que tal está a acontecer”, avisa.

Numa altura em que o distanciamento físico é pedido a todos, este alerta ganha especial relevância, já que a população cega não consegue por si manter o distanciamento, cabendo por isso aos outros a manutenção de um espaço seguro.

Por outro lado, os utilizadores cegos receberam também indicações da ABAADV, segundo as diretivas da Ordem dos Médicos Veterinários, de como higienizar as patas dos seus cães-guia e para reforçarem a lavagem das mãos depois do contacto com os seus animais.

Saiba aqui como ajudar a ABAAVD.

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