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Conferências Veterinária Atual: Comunicar melhor, apostar na formação e cuidar da saúde mental

conferências VET

Foram cerca de 230 participantes a marcar presença no total dos dois dias das Conferências Veterinária Atual, realizadas em formato virtual, nos dias 9 e 10 de dezembro. “One Health, One Business” foi o tema escolhido para esta edição, numa organização conjunta da revista Veterinária Atual e da IFE Abilways.

Na primeira tarde, o tema “One Health” foi o grande protagonista neste palco virtual que reuniu oradores, patrocinadores, empresas, profissionais e audiência. A segunda tarde foi dedicada ao “One Business”, com o debate sobre temas de gestão e estratégias de negócio, mas também ao bem-estar animal e à saúde mental de profissionais e tutores.

Com a pandemia de covid-19, o digital tem assumido um papel de maior destaque e também os médicos veterinários têm estado na linha da frente no que respeita aos conteúdos mais fidedignos e úteis num claro combate ao que se pode chamar de “Vet Google”. Cátia Mota e Sá, médica veterinária diplomada em quiroprática animal, Gonçalo da Graça Pereira, médico veterinário especialista em comportamento e Hugo Brancal, médico veterinário e diretor clínico da Clínica Veterinária da Covilhã partilharam alguns dos seus projetos online e que passam pela criação de conteúdos, desde webinars, lives e tutoriais através do Facebook e de Instagram, por programas no Youtube e blogues.

“É necessária responsabilidade acrescida na forma como comunicamos” – Cátia Mota e Sá

“Temos de saber gerir as redes sociais com algum equilíbrio tentando não perder a mensagem objetiva e mantendo a ligação do cliente connosco. É necessária responsabilidade acrescida na forma como comunicamos”, explicou Cátia Mota e Sá, sublinhando que independentemente da competência técnica dos médicos veterinários, nada substitui a relação humana que se cria com os tutores dos animais. A médica encontrou no Instagram uma forma de se aproximar dos mesmos, numa altura em que a pandemia obriga a um maior distanciamento e à espera dos donos no exterior das clínicas não podendo partilhar a consulta durante o Estado de Emergência. Começou por criar lives e webinars que são seguidos tanto por colegas como por tutores. “Esta perda de contacto humano levou-me a criar uma forma de poder chegar às pessoas e o Instagram acabou por tornar-se num veículo muito importante para transmitir conteúdos fidedignos”, avança.

“Devemos trabalhar mais em conjunto e reforçar a união da classe pois é essa união que vai fazer a força” – Gonçalo da Graça Pereira, especialista em comportamento animal

Gonçalo da Graça Pereira começou por contar que era um pouco avesso às redes sociais até que um colega o incentivou a apostar nesta área, primeiro no Facebook e, mais tarde, no Instagram. Além do público alvo das redes de Cátia Mota e Sá, o especialista em comportamento animal destacou os estudantes de medicina veterinária como seguidores das suas redes sociais.

Hugo Brancal referiu o programa “Animal Talks” no Youtube como uma forma de divulgar procedimentos e visitar clínicas veterinárias para dar a conhecer melhor a profissão. “Temos um blogue – https://animaltalks.pt – com o mesmo nome que foi criado como uma tentativa de combater o Dr. Google e que conta com a colaboração de vários colegas de veterinária”, disse, sugerindo todos os profissionais que assim desejem que participem com maior regularidade pois este é um blogue de todos e para todos.

“Devemos repensar a nossa posição porque considero que somos uma classe que não se autovaloriza. Temos de defender o nosso enorme valor” – Hugo Brancal, médico veterinário e autor do “Animal Talks”

Nesta mesa redonda, ficou bem patente a necessidade urgente de reconhecimento da profissão. É preciso maior brio, defendeu Hugo Brancal. “Devemos repensar a nossa posição porque considero que somos uma classe que não se autovaloriza. Temos de defender o nosso enorme valor”, adiantou. Gonçalo da Graça Pereira concordou com o colega: “Devemos trabalhar mais em conjunto e reforçar a união da classe pois é essa união que vai fazer a força.” Cátia Mota e Sá assumiu esta exigência como um dever adiantando “que há ainda um longo caminho a percorrer”.

 Foco na saúde mental

Ricardo Reis dos Santos, biólogo, investigador do Instituto de Saúde Ambiental e do Centro de Bioética e consultor do Núcleo Académico de Estudos e Intervenção sobre o Luto e Miguel Barbosa, psicólogo clínico e psicoterapeuta, professor da FMUL e investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa participaram numa apresentação conjunta que respondeu à questão “Porque é que a saúde mental das equipas veterinárias é uma questão One Health?” e deram a conhecer a plataforma Respect, criada por ambos, com a finalidade de disponibilizar formações para situações ligadas ao burnout e ao stress e facilitar as competências de comunicação clínica.

Neste âmbito, e num estudo que realizaram para perceber a perceção dos estudantes de medicina veterinária quanto às suas competências de comunicação para lidarem com as emoções e o luto dos seus clientes, verificaram que “os estudantes do 5º e 6º anos de medicina veterinária sentem-se pouco ou relativamente preparados para valorizar os temas relacionados com as competências comunicacionais considerando pertinente o devido treino ao nível do ensino pré-graduado”, explicou Ricardo Reis dos Santos, assinalando o vazio que existe ao nível do ensino superior.

O colega Miguel Barbosa referiu a gestão das expectativas dos tutores, a necessidade de criar um roteiro de estratégias que melhor preparem os médicos veterinários para lidar com situações de stress sobretudo quando existe uma forte ligação emocional dos tutores com os seus animais e a relevância da formação comunicacional que abranja toda a equipa. “Não é fácil lidar com alguém que manifesta o seu sofrimento de forma intensa perante os profissionais e isso requer uma resposta rápida”, disse. Além do cansaço extremo (burnout) pode surgir uma fadiga por compaixão quando os médicos veterinários se envolvem em demasia com a tristeza dos clientes que se deparam perante um diagnóstico difícil ou a sugestão da eutanásia como única alternativa. “Comunicar é muito mais do que meramente informar. Tanto as palavras como a respetiva omissão têm diferentes graus e podem ter um efeito de grande contenção e alívio ou podem ferir os tutores causando-lhes alguma irritação”, explicou o psicoterapeuta.

“Comunicar é muito mais do que meramente informar. Tanto as palavras como a respetiva omissão têm diferentes graus e podem ter um efeito de grande contenção e alívio ou podem ferir os tutores causando-lhes alguma irritação”Miguel Barbosa, psicólogo clínico e psicoterapeuta

Numa espécie de roteiro composto por sugestões que protegem a saúde mental dos tutores e dos profissionais de saúde, a estratégia de comunicação clínica pode ser adaptada a diferentes cenários e ajudar a lidar com estes momentos desafiantes. “É preciso comunicar de forma adequada consoante o estilo do tutor e, de forma gradual, para que a pessoa vá integrando e interiorizando determinada questão, identificar a rede de apoio que pode auxiliar o tutor, sintetizar os aspetos-chave e delinear um plano de seguimento a elaborar, entre outros aspetos.” Os tutores fazem parte da educação e com a adequada formação, a comunicação clínica pode melhorar e os níveis de stress vivenciados nos CAMV podem ser ajustados e melhorados.

Vender valor

Nuno Silva, médico veterinário e fundador da consultora Vet Objectiv teve a seu cargo uma apresentação que sublinhou a importância da manutenção ou implementação de boas práticas de medicina preventiva como uma responsabilidade do médico veterinário e, simultaneamente, uma oportunidade.

A estratégia de venda do conceito de medicina preventiva pode ser implementada em quatro frentes, referiu o orador: implementação de guidelines de medicina preventiva no seu CAMV; criação de planos de medicina preventiva, aposta no marketing e nas redes sociais e comunicação mais efetiva com os clientes. No que respeita ao último ponto, é crucial dar formação a toda a equipa e esse é um aspeto que não pode ser descurado, ideia que ficou subjacente ao longo deste dia.

O consultor, que também é médico veterinário, mas deixou de exercer, aconselhou a audiência a traçar um perfil de cliente e referiu a “Regra de Pareto” como um conceito muito utilizado para capitalizar os negócios. Concluindo a sua apresentação com aquilo que a American Animal Hospital Association considera como um bom plano de medicina preventiva, Nuno Silva destacou critérios e algumas dicas e práticas que qualquer CAMV pode começar desde já, como por exemplo, a criação de primeiras consultas especiais , a criação de plano básico de medicina preventiva para vender “em pacote”, o treino do pessoal auxiliar, do ponto de vista científico mas também comercial, a identificação de clientes Pareto e respetiva capitalização, privilegiar e dar um toque mais pessoal aos contactos telefónicos em vez de enviar lembretes de marcações aos clientes.

“A maioria dos médicos veterinários não teve contacto com a área de gestão ou comercial durante a sua formação. Sou um grande defensor de integrar algumas cadeiras relacionadas com estes temas no currículo do Ensino Superior”- Nuno Silva, fundador da Vet Objetiv

“A maioria dos médicos veterinários não teve contacto com a área de gestão ou comercial durante a sua formação. Sou um grande defensor de integrar algumas cadeiras relacionadas com estes temas no currículo do Ensino Superior”, salientou Nuno Silva

Marília Calçada, médica veterinária e CEO da Cooperativa de Comercialização e Distribuição de Produtos Veterinários Nacional (Codivet) deu a conhecer o rebranding da marca com a criação de um novo logótipo assente na mensagem “A nova força dos veterinários” e a necessidade de dar mais sentido ao que chamou de “Vet Empowerment” para que os veterinários sintam que a Codivet os apoia ao nível de produtos e dos serviços para gerirem o CAVM da melhor forma e lhes garante eficiência e independência. “Somos o único distribuidor a nível nacional que vende exclusivamente ao médico veterinário”, assinalou.

Depois de onze anos desde a criação do site da empresa na ótica da distribuição, a oradora referiu algumas novidades bem como a reformulação da equipa de atendimento de grau técnico. “É uma equipa que continua apaixonada por aquilo que faz e composta por profissionais qualificados em várias dimensões no negócio dos CAMV”, disse, dando a conhecer o conceito que a Codivet optou por trazer de forma inovadora ao seu negócio, o “greenvet”. Na prática, a mensagem a passar é que “o veterinário vai ser ‘mais green’, o que gera “mais confiança junto dos seus clientes e significa que está ao lado da inovação”.

As Conferências Veterinária Atual deram a conhecer a nova diretora editorial, Joana Vieira, que teve a seu cargo a apresentação e moderação do evento.

*Não perca a reportagem alargada das Conferências Veterinária Atual na edição de janeiro da revista.

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