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“Cerca de 30% a 40% dos animais de companhia vão desenvolver algum tipo de neoplasia ao longo da vida”

A afirmação é da médica veterinária Sofia Alves, no âmbito das Conferências Kimipharma sobre o conceito One Health, que decorreram no passado dia 2 de outubro. A oradora trouxe ao evento a temática da oncologia numa abordagem global e, em entrevista exclusiva à VETERINÁRIA ATUAL, fala sobre a mais-valia da criação do Registo Oncológico Animal (ROA).

Tendo em conta a cada vez maior esperança de vida dos animais de companhia, que importância tem a especialização em oncologia veterinária?

 

Nos últimos anos temos tido alguns fatores importantes de desenvolvimento da oncologia veterinária. Além do aumento da esperança de vida − por melhor controlo das doenças infeciosas, pela melhor alimentação − os animais também são mais vistos como membros da família e os tutores estão mais dispostos a tratar.

Além disso, existem mais meios de diagnóstico disponíveis que antigamente não existiam, nomeadamente TAC, que nos permitem chegar ao diagnóstico mais facilmente.

 

Atualmente, cerca de 30% a 40% dos animais de companhia vão desenvolver algum tipo de neoplasia ao longo da vida.

O facto de os tutores estarem mais atentos também melhora o prognóstico da doença?

 

Sim. Como são animais que vivem com a família, os tutores notam os sintomas numa fase muito inicial. Às vezes para o médico veterinário pode ser ingrato porque é muito inespecífico, mas também permite fazer diagnósticos cada vez mais precoces que melhoram os resultados do tratamento.

Em termos de investigação, que mais-valia pode trazer o Registo Oncológico Animal (ROA)?

 

Noutros países já foi possível verificar que existe muita semelhança entre as neoplasias dos animais e das pessoas na mesma área geográfica. O que tem lógica devido aos poluentes e à alimentação, que são os principais responsáveis pelo surgimento destas patologias.

Tendo um grupo suficientemente alargado de animais classificados podemos fazer alguma comparação com a [oncologia] humana e tentar tomar medidas preventivas para estas patologias terem uma menor incidência.

A maior dificuldade é que por vezes em veterinária a classificação das patologias não é igual à humana, tornando difícil comparar coisas que não têm a mesma denominação. O importante seria homogeneizar as classificações para depois podermos comparar entre espécies.

Focando o conceito One Health, de que forma a mais recente investigação em oncologia, que resultou no desenvolvimento da imunoterapia, pode melhorar a sobrevida dos animais de companhia?

Neste momento sabemos que, em termos de imunoterapia e imunomodulação, os estudos feitos em veterinária tiveram um efeito benéfico nesses animais. Ainda não estão disponíveis por causa das dosagens, da farmacocinética e do preço que dificulta a utilização em veterinária.

A radiação já é feita em alguns animais, mas em poucos locais. Na radioterapia, além do animal depois ter de ficar isolado no caso da patologia do sangue, é complicado e dispendioso usar em animais.