Quantcast
Animais de Companhia

Alergias com manifestações dermatológicas: Futuro pode passar pelo tratamento personalizado

É preciso estar atento aos sinais que as alergias podem dar. E esse é um trabalho conjunto entre os médicos veterinários e os detentores dos animais. A inovação terapêutica continua a surpreender e também a investigação nesta área caminha no sentido de encontrar boas soluções e ferramentas que promovam uma maior adesão à terapêutica a pensar na melhor qualidade de vida dos pets.

Constituem as manifestações dermatológicas mais comuns em cães e gatos e as que mais surgem na prática clínica são a dermatite atópica (DA) – que afeta 20% dos cães – e a receção adversa ao alimento. “Os sinais clínicos mais vezes encontrados são o prurido que varia de ligeiro a grave, eritema, alopecia, escoriações, infeções secundárias, sobrecrescimento de leveduras e distúrbios gastrointestinais”, explica Tiago Lima, coordenador do serviço de Dermatologia da Alma Veterinária Hospital. As zonas afetadas deste grupo de sinais clínicos compreendem as regiões interdigitais, o focinho, as axilas, as virilhas, o abdómen e o ânus, acrescenta. Estas alergias podem ainda afetar todo o corpo.

A principal manifestação da DA é o prurido e determinadas raças apresentam maior probabilidade de desenvolver a doença. “Esta doença complica-se muitas vezes por infeções secundárias que agravam os casos”, explica Ana Mafalda Lourenço, professora auxiliar da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa (FMV-ULisboa), responsável pelo ensino de dermatologia e pelo Serviço de Dermatologia/Alergologia do Hospital Escolar da mesma faculdade. Os alergénios ambientais, como os “ácaros do pó” e os pólenes são os mais frequentemente envolvidos na DA. “No entanto, estes também podem ser de origem alimentar”, sublinha.

Relativamente aos felinos, salienta-se ainda a prevalência da síndrome atópica felina cutânea, podendo “exibir múltiplos padrões de clínica, além do prurido, incluindo a dermatite miliar, alopecia autoinduzida, prurido da cabeça e pescoço e as lesões do complexo granuloma eosinofílico”, explica Diana Ferreira, diplomada pelo Colégio Europeu de Dermatologia e médica veterinária da Onevet Group.

Relativamente à sazonalidade com que estas alergias surgem, Ana Mafalda Lourenço, que é também investigadora do Centro de investigação Interdisciplinar em Sanidade Animal (CIISA), Clinical Research Lab, defende que as mesmas tendem a ser perenes e não sazonais. “Claro que, individualmente, um animal poderá estar pior numa dada altura do ano de acordo com a sua sensibilização particular. Por exemplo, se for alérgico ao pólen do cipreste ou das gramíneas, a doença poderá agravar na altura de polinização destas espécies”. Tiago Lima corrobora esta opinião e diz-nos que uma reação adversa ao alimento não é sazonal, mas que a DA, quando causada por alergénios, como pólenes, são sinais clínicos mais evidentes na primavera e no verão, ou anual, caso esta alergia seja provocada por ácaros do pó.

Que consequências podem ter estas alergias ao longo do tempo? Desde logo, o conforto e a qualidade de vida do animal ficam comprometidos se a alergia associada a comichão se prolongar no tempo. “Casos crónicos e não tratados conduzirão a alterações crónicas e, em determinados casos, a alterações definitivas da pele do animal. O melhor exemplo são as otites recorrentes que poderão conduzir a modificações definitivas da arquitetura do conduto auditivo, que depois só poderão ser resolvidas através da remoção cirúrgica”, defende Tiago Lima. Os cães com DA podem dormir mal e em estado de constante irritabilidade devido ao mal-estar que a doença provoca.

Diana Ferreira, também professora convidada da Universidade Lusófona e presidente do Conselho Fiscal da SPDEV (Sociedade Portuguesa de Dermatologia Veterinária), alerta para a consequente perda de qualidade de vida dos donos e refere um estudo que indica que “o prurido em cães afetava o seu comportamento, humor e qualidade de sono e estes animais pareciam mais cansados e inquietos”. O mesmo estudo demonstrou ainda que 48% dos titulares também consideraram que a doença teve um impacto na sua própria qualidade de vida, evidenciando considerável desgaste emocional e físico. “Tal como acontece na medicina humana, esta doença interfere de forma muito expressiva no comportamento dos animais e na sua interação com os donos, outros animais em casa e na normal dinâmica do dia-a-dia”, salienta. Avaliar a sintomatologia de DA, o mais rapidamente possível, de modo a permitir o retorno mais célere à normalidade dos animais e dos seus detentores é assim relevante.

Sensibilização para os sinais clínicos e para o tratamento

Num estudo recente realizado pelo CIISA acerca da educação dos donos relativamente à DA canina, foi realizado um questionário para medir o conhecimento acerca de factos relevantes sobre a doença. “Antes de qualquer explicação por parte da nossa equipa, 38% dos titulares não atingiram a pontuação mínima considerada, sendo que este número diminuiu para 14% após as referidas explicações”, explica Beatriz Fernandes que concluiu recentemente os trabalhos da sua dissertação no Mestrado Integrado de Medicina Veterinária (MIMV) no Serviço de Dermatologia/Alergologia do Hospital Escolar da FMV-ULisboa. Além deste resultado, verificou-se que, mesmo nos titulares que atingiram uma pontuação aceitável, houve algumas perguntas em que a percentagem de respostas incorretas foi muito grande.

Beatriz Fernandes

À semelhança do que se passa na pediatria com a asma ou com a DA, os donos dos animais deveriam conseguir gerir a doença dos seus cães dentro de determinados limites. “Por exemplo, saber o que podem usar numa crise de prurido mais intenso, nomeadamente recorrer a uma cortisona tópica durante uns dias”, defende Ana Mafalda Lourenço. Além disso, a também investigadora considera que “os donos devem ter expetativas adequadas em relação à doença, que é crónica e incurável, percebendo os vários quadrantes de atuação terapêutica e a flutuação de sintomatologia que pode existir”.

Tiago Lima considera que este tema não é simples pois a atitude dos donos varia mediante a situação económica e o nível cultural dos mesmos. “A verdade é que nos últimos anos com o aumento da ‘humanização’ dos animais, a consciência dos detentores com o bem-estar dos seus animais também é maior. Na maioria dos meus pacientes, os seus titulares estão cada vez mais sensibilizados para a doença alérgica”, afirma. Muitos deles estão já educados no sentido de contactá-lo quando notam que há recidiva dos sinais clínicos mesmo que de forma ligeira. É que a prevenção secundária é importante “para suspender a evolução da doença e inibir o aparecimento do prurido e da inflamação de forma que o animal tenha melhor qualidade de vida”, foca o médico veterinário.

“Na maioria dos meus pacientes, os seus titulares estão cada vez mais sensibilizados para a doença alérgica”Tiago Lima, Alma Veterinária Hospital

Os médicos veterinários desempenham também um papel na sensibilização dos donos e na identificação precoce de sinais ligeiros que podem indiciar uma doença de foro alérgico. “Compete-nos a nós, médicos veterinários, mapear e explicar aos titulares que os comportamentos que o animal apresenta não são normais nem são causados por stresse (como por exemplo, aquele animal que lambe constantemente as patas). E é importante que o façamos, pois um animal que padeça de doença alérgica com manifestações cutâneas verá o seu dia-a-dia mais difícil devido à diminuição marcada da qualidade de vida”, explica Tiago Lima.

Nesse sentido, será que a comunicação e a educação constituem um dos maiores desafios da gestão desta doença? Beatriz Fernandes considera que sim denotando “quadros pouco ou nada controlados apesar da disponibilidade de estratégias eficazes de tratamento. O papel do médico veterinário na abordagem de sensibilização do titular torna-se assim fundamental, tendo um impacto real na gestão da doença e, consequentemente, na qualidade de vida tanto dos cães como dos seus donos/família”. Divulgar a doença junto da comunidade, de criadores e associações de raças predispostas, mas também em meios de comunicação generalistas para a população em geral é uma fórmula promovida por Ana Mafalda Lourenço e a sua equipa. “Criámos ferramentas audiovisuais com o apoio da Ceva Portugal, facilmente compreensíveis e com acesso a todos [disponível no Youtube em https://youtu.be/w0l_PhcmMOs]”, explica a docente.

A comunicação com os donos reveste-se de particular importância e é um ponto que não recebe a devida atenção por parte dos médicos veterinários, adverte Diana Ferreira. “Na minha opinião, muitas faltas de compliance estão relacionadas com uma comunicação menos boa entre o médico veterinário e o titular, o que conduz a uma má compreensão por parte deste do que é a patologia do seu animal e das necessidades desta em termos terapêuticos”, defende. O clínico, por seu turno, deve passar informação correta e precisa para que os donos possam compreender sobre o que esperar da doença do seu animal e do respetivo tratamento. “O clínico deve ser um bom comunicador, ser empático com o dono, ouvir as suas preocupações, mas também informá-lo corretamente da patologia do seu animal e ser realista quanto às expetativas que ambos – clínico e titular– podem ter relativamente ao quadro dermatológico”, conclui.

“O clínico deve ser um bom comunicador, ser empático com o titular, ouvir as suas preocupações, mas também informá-lo corretamente da patologia do seu animal e ser realista quanto às expetativas que ambos – clínico e dono – podem ter relativamente ao quadro dermatológico” – Diana Ferreira, Onevet Group

Este ano, a revista Veterinary Dermatology publicou “uma série de artigos de linhas guia para o maneio da terapêutica da síndrome atópica felina”, destaca Diana Ferreira, esclarecendo que este documento ajuda os profissionais “a compreender melhor as indicações das diferentes opções terapêuticas para esta espécie”.

Novidades no tratamento

O tratamento de cada caso deve ser individual e personalizado, podendo passar por fármacos, aplicação de sprays ou champôs e injeções. Ao nível da farmacologia, têm vindo a ser utilizados fármacos nas últimas décadas para controlo da doença alérgica que afeta a pele, entre eles, “os corticóides, anti-histamínicos, ciclosporina, ácidos gordos, maropitant, entre outros, menos utilizados. Mas recentemente, nos últimos cinco anos aproximadamente, iniciou-se a comercialização de duas novas moléculas que apresentam bons resultados no controlo da doença alérgica e que tem uma reduzida incidência de efeitos secundários. Inicialmente, apareceu o oclacitinib (em formulação de comprimidos) e, posteriormente, o lokivetmab (em formulação de administração subcutânea)”, explica Tiago Lima. No caso específico da reação adversa ao alimento é importante alterar a fonte de proteína do animal, optando-se por uma proteína hidrolisada, na maioria dos casos, sublinha o médico veterinário.

Ana Mafalda Lourenço também refere estes mesmos tratamentos sistémicos enunciados pelo colega da Alma Veterinária Hospital salientando ainda que, mais recentemente, “tenham surgido os tópicos com formulações interessantes e práticas, nomeadamente, as mousses”. A investigação é contínua e existe uma grande expetativa nos profissionais do setor para o aparecimento de mais e novas ferramentas para breve.

No que respeita a novidades propriamente ditas por parte da indústria, a VETERINÁRIA ATUAL procurou conhecer as mais recentes. A Campifarma lançou, no mês de maio, a gama de champôs da linha Dermoscent, onde se inclui o Dermoscent Atop 7 Shampo, um produto que veio completar a linha Atop 7, onde já se incluía uma mousse e um spray calmantes e onde, em breve, a empresa conta ter novidades. Este produto “combina a ação antiprurítica, anti-inflamatória e calmante com a ação emoliente, hidratante e reestruturante sendo, por isso, uma escolha acertada em casos de alergias com manifestação dermatológica. A sua base de óleo de coco e glicose vegetal e a sua composição rica em ácidos gordos e óleos essenciais conferem-lhe uma textura cremosa e macia tornando-o um champô de aplicação muito suave com indicação para todas as peles irritadas, sensíveis e com tendência para alergias”, explica Joana Moreira, médica veterinária e sales representative DIMV da Campifarma. Esta nova gama de champôs marca a diferença pela sua composição 100% natural e sem qualquer aditivo sintético, sublinha.

Também em maio, a Vetoquinol lançou o sistema Phovia, que “consiste numa lâmpada de luz LED e um gel cromóforo que converte a luz da lâmpada em ondas eletromagnéticas hiperpulsadas fluorescentes policromáticas. Este sistema demonstrou cientificamente eficácia e segurança em pioderma superficial e profundo, furunculose interdigital, fístulas perianais e também em feridas cirúrgicas e traumáticas”, explica o product manager Álvaro Ortega Colina. A inovação assenta nos diversos efeitos que “os diferentes comprimentos de onda da energia lumínica FLE demonstraram nas várias camadas da pele, acelerando a recuperação de dermatites que, em grande parte dos casos, são de base alérgica.”

Em fevereiro deste ano, a Hill’s Pet Nutrition lançou o novo Hill’s Prescription Diet Derm Complete, a mais recente e inovadora nutrição desta gama e disponível em várias formulações. “Derm Complete é a única solução nutricional clinicamente comprovada que controla as alergias alimentares e ambientais em cães em simultâneo independentemente da causa. Este novo alimento ajuda a aliviar todos os comportamentos excessivos associados ao prurido, eritemas e outras lesões que são a causa de visita regular ao veterinário. Num estudo ‘open-label’ conduzido pela Hill’s, este produto reduziu o prurido noturno e as interrupções ao sono em dois meses em 75% dos cães”, explica Margarida Tomé, marketing & professional affairs manager. Este novo produto “é formulado com ótimos níveis de nutrientes chave que ajudam a fortalecer a barreira natural da pele contra os alérgenos ambientais que podem desencadear episódios futuros. Contém ainda o complexo histaguard com bioativos e fitonutrientes para ajudar a controlar a resposta dos cães aos alérgenos ambientais”, sustenta a responsável.

A VetNova tem um amplo portefólio de produtos da linha dermatológica que tem vindo a crescer ao longo do tempo. “No ano passado, lançámos uma nova apresentação de 355 ml, do nosso champô Cutania GlycOat, com ação calmante e efeito hidratante, em formato individual e em pack, com um spray associado, para se obter um maior efeito”, explica Ana Dias, diretora comercial da Vetnova Portugal. A empresa vai lançar, muito em breve, o pack Cutania Hair Control, um champô e condicionador com ácidos gordos, vitaminas e antioxidantes que têm como benefícios “promover um crescimento saudável e nutritivo do pelo, ajudar no maneio da descamação e reforçar os mecanismos naturais de reparação da pele”.

Investigação na área de imunoterapia epicutânea

No Serviço de Dermatologia do Hospital Escolar da FMV-ULisboa e no âmbito da Allergy and Immunology Unit do CIISA, há o objetivo de realizar uma investigação clínica que responda aos desafios ou necessidades encontradas na prática clínica, norteados pelo que se faz de novo tanto em medicina veterinária como em medicina humana. “Muitas vezes, o Homem é o nosso modelo. São exemplos disso, os últimos estudos que realizámos e que vamos apresentar no próximo Congresso Europeu de Dermatologia, nomeadamente um novo protocolo alternativo com oclacitinib (Apoquel) com o potencial de reduzir os custos da terapêutica, uma nova ferramenta audiovisual de educação dos titulares pois os desafios da comunicação dos donos são imensos e, por fim, uma nova forma não-invasiva ou dolorosa de ‘vacina para as alergias’, a imunoterapia epicutânea”, explica Ana Mafalda Lourenço.

É uma nova forma de administração das chamadas vacinas para as alergias e a grande novidade é o facto de se aplicar diretamente na pele. “Tem a consistência de uma pomada, sendo uma forma que permite a fácil administração por parte do detentor do animal, assim como, uma boa aceitação por parte do animal visto ser uma via não dolorosa ou invasiva”, salienta a docente. Ambos estes factos têm o potencial de aumentar a adesão à terapêutica. “A imunoterapia alergénio-específica é o único tratamento etiológico disponível face à alergia em pessoas e cães. Dado que a epiderme contém uma grande densidade de células apresentadoras de antigénio e não é vascularizada poderá permitir a redução do número de administrações e do risco de efeitos secundários, garantindo simultaneamente uma excelente potência da vacina”, acrescenta Marta Pinto, em fase de conclusão do MIMV e investigadora no CIISA.

Este tipo de terapêutica tem sido amplamente abordado em medicina humana, tanto ao nível da alergia alimentar, como da alergia ambiental, com resultados promissores. Na opinião de Ana Mafalda Lourenço, os benefícios da imunoterapia para alergénios constituem um bom investimento em termos da saúde dos nossos animais e, enquanto clínica, depara-se com algumas dificuldades e frustrações. “Considero que é uma área que carece mais de estudos e investigação de forma a encontramos boas soluções e alternativas para os animais e seus donos”, adianta. Tanto quanto a equipa conhece, esta linha de investigação foi apenas estudada em cães neste serviço, o que foi possível através da estreita colaboração com a Letipharma e a Faculdade de Farmácia da ULisboa, “além da forte motivação de todos os clínicos da equipa, nomeadamente, dos colegas Hugo Pereira e da Marta Pinto, para o recrutamento e acompanhamento destes pacientes”, destaca.

“Considero que é uma área que carece mais de estudos e investigação de forma a encontrarmos boas soluções e alternativas para os animais e seus donos” – Marta Pinto Hospital Escolar da FMV-ULisboa

Marta Pinto revela uma investigação que contou com a participação de 15 cães (labrador retriever e buldogue francês) com DA espontânea não-sazonal onde se concluiu que todos os cães melhoraram o seu grau de prurido após apenas três meses de tratamento, com uma taxa de sucesso considerada de 86.67% (definida de acordo com os critérios do ICADA recentemente publicados). “Foi também notória a melhoria do quadro lesional, com uma taxa de sucesso de 66.67%, e a melhoria da qualidade de vida em 13 animais face ao valor inicialmente registado, com uma percentagem média de melhoria de 54.58%. No final, 13 dos 15 titulares classificaram a resposta à imunoterapia epicutânea como boa a excelente, o que foi muito motivante. Além disso, não foram registados efeitos adversos graves durante o período de estudo”, salienta.

A imunoterapia epicutânea é um dos tratamentos economicamente mais viáveis e com provas dadas de sucesso a longo prazo para as alergias pois conjuga várias vantagens. “O seu potencial para ser mais eficaz e segura do que as formas de imunoterapia atualmente disponíveis tornam esta via muito atrativa do ponto de vista clínico em medicina humana, podendo ser também este o caso em medicina veterinária”, explica Marta Pinto. Além disso, na perspetiva dos donos, o facto de dispensar o uso de agulhas, ao contrário da via subcutânea, e de não requerer administração diária, como acontece com a via sublingual, poderá ser recebido com grande entusiasmo, contribuindo para uma maior aceitação e adesão à terapêutica, acrescenta. Ao facilitar a vida aos donos, deve ter-se ainda em consideração o respetivo ensino e maneio da mesma.

Ana Mafalda Lourenço considera que esta será mais uma opção terapêutica alternativa para administrar a imunoterapia face a alergénios, podendo fazer sentido para alguns animais e não para outros. “O importante é haver oferta de várias vias eficazes, devidamente estudadas para podermos personalizar os tratamentos de acordo com as dinâmicas específicas dos cães e dos seus donos. Pretendemos trabalhar nesse sentido”, explica.

“O importante é haver oferta de várias vias eficazes, devidamente estudadas para podermos personalizar os tratamentos de acordo com as dinâmicas especificas dos cães e seus donos. Pretendemos trabalhar nesse sentido” Ana Mafalda Lourenço, FMV-ULisboa

O que esperar no futuro?

Atualmente, com o estudo desenvolvido, a equipa da FMV-ULisboa encontra-se a preparar os resultados. No futuro, pretendem otimizar a formulação e a forma de administração, alargando a escala de animais incluídos e o tempo de investigação. “Só assim poderemos ter resultados fiáveis”, explica Ana Mafalda Lourenço. Seguindo a linha de investigação em vias de administração não-invasivas e convenientes para os tutores de cães atópicos, os próximos passos serão no sentido de aperfeiçoar o protocolo da imunoterapia epicutânea utilizado, com vista a ultrapassar certas limitações notadas neste estudo piloto, explica Marta Pinto. “Além disso, pretendemos alargar a investigação à imunoterapia sublingual/oral em cães, com o objetivo de melhorar a eficácia desta via que, por si só, é muito interessante do ponto de vista imunológico e prático”, acrescenta.

Ana Mafalda Lourenço, Marta Pinto e Hugo Pereira

Nos últimos anos, o Hospital Escolar da FMV-ULisboa, com o apoio do CIISA, tem procurado recolher informação de forma a melhor caracterizar os endótipos da doença alérgica nos cães, nomeadamente numa raça predisposta, o buldogue francês. “De facto, nem todos os pacientes são iguais. Na clínica, observamos que, por exemplo, uns têm uma doença mais inflamatória do que outros e as respostas à terapêutica também variam entre os pacientes. Seria interessante poder prever qual o melhor tratamento para um determinado cão baseado em algum biomarcador que nos desse essa informação, em vez do método de tentativa e erro que usamos atualmente”, explica Ana Mafalda Lourenço.

Atualmente, o foco da investigação assenta na singularidade do doente e na necessidade de uma terapia personalizada. “Em medicina humana, a asma, a rinite alérgica e a DA já estão a seguir esse caminho e, em veterinária, também não somos exceção. O fenótipo dos pacientes e os biomarcadores que vão surgindo de dia para dia permitem ´pintar’ diferentes quadros na mesma doença. Se a isto juntarmos o aparecimento de terapias específicas como os anticorpos monoclonais (como por exemplo, o lokivetmab), podemos, num futuro próximo, ser mais céleres, mais precisos e mais eficazes nos tratamentos destas doenças.”, explica Hugo Pereira, clínico do Serviço de Dermatologia/Alergologia do Hospital Escolar da FMV-ULisboa e investigador do CIISA.

Outra das áreas em desenvolvimento é a prevenção primária no Homem e Beatriz Fernandes considera que é um tema a que os veterinários têm de estar atentos. “Esta é uma doença ‘para a vida’, muito prevalente nos nossos animais, que exige uma gestão complexa e financeiramente custosa, tendo um impacto muito forte e real na qualidade de vida dos cães e dos seus detentores. Torna-se então fácil de perceber que a investigação de estratégias de prevenção primária, que possam ter o potencial de mudar o curso da doença e minimizar a sensibilização a alergénios, é algo importantíssimo e a necessitar de atenção urgente.” Neste sentido, a equipa do Hospital Escolar da FMV-ULisboa já tem um projeto de investigação nesta área pronto a arrancar em breve.

A melhor prevenção seria saber, em cada caso, que alergénios podem resultar em exacerbações clínicas para se poder evitar o contacto com os mesmos, defende Diana Ferreira. “Uma vez que tal nem sempre é possível, a prevenção passa por adotar uma atitude terapêutica proativa de modo a evitar as recaídas, seja através de um controlo proativo da inflamação do animal, seja por um reforço da barreira epidérmica através de uma reposição dos ácidos gordos por via tópica ou oral, seja por um bom controlo de ectoparasitas que podem servir de desencadeantes das recaídas ou através da administração de uma dieta limitada em possíveis alergénios alimentares”, salienta.

A médica veterinária e docente destaca alguns avanços ao nível da investigação da patogénese desta patologia, especialmente, nos mecanismos de desenvolvimento do prurido, que é o sinal clínico por excelência da DA. “O conhecimento destes mecanismos, ou seja, dos mediadores inflamatórios e vias sensitivas envolvidos no desencadear deste sinal abrem portas ao desenvolvimento de novas moléculas ou técnicas para o bloqueio do prurido. As novas moléculas disponíveis, como o lokivetmab ou oclacitinib demonstram elevada segurança e eficácia nos cães permitindo um melhor e rápido controlo da doença e também bastante mais seguro quando comparado com as opões esteroides mais antigas.” Relativamente aos felinos, considera que é necessário conhecer melhor os mecanismos fisiopatológicos da doença para o desenvolvimento de mais opções terapêuticas inovadoras. “A esperança é de que estas investigações tragam novas perspetivas quanto ao desenvolvimento de moléculas mais direcionadas ao tratamento desta condição nos gatos”, acrescenta.

Causas das alergias com manifestação dermatológica

Tiago Lima, médico veterinário e coordenador do Serviço de Dermatologia da Alma Veterinária Hospital explica o que causa a dermatite atópica e a reação adversa ao alimento.

Dermatite atópica: É causada pela penetração de alergénios na pele (sendo que estes animais apresentam alterações da barreira cutânea, facilitando assim a sua entrada), uma vez detetados pelo sistema imunitário este irá desencadear uma série de reações imunológicas que irão conduzir a uma ativação das células T e à liberação de interleucinas responsáveis pelo prurido e inflamação. Posto isto, há uma ativação da central do prurido, despoletando assim no animal comportamentos como coçar, lamber ou esfregar.

Reação adversa ao alimento: Consiste numa reação adversa a um alimento ou a um aditivo (sendo as proteínas, na sua maioria, as causadoras desta reação) que induz uma resposta imunológica, que tem como base mecanismos que podem, ou não, envolver a produção de imunoglobulina E. Todo o mecanismo da fisiopatologia desta doença ainda não se encontra totalmente descrito.

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 151 da revista VETERINÁRIA ATUAL, de julho-agosto de 2021.

Este site oferece conteúdo especializado. É profissional de saúde animal?