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“Acho que a entrada no mercado de trabalho deve ser uma prioridade”

Beatriz Silva

Médica veterinária interna no Anglesey Lodge Equine Hospital, Irlanda

 Qual é a sua área de especialidade (ou de interesse) e porque é que escolheu essa área?

Tenho uma enorme paixão por cavalos que surgiu quando comecei a montar em pequena e que se foi materializando na vontade de me envolver no mundo dos equinos e do desporto. Foi com esse objetivo que me formei em medicina veterinária.

Passou por vários estágios, curriculares e profissionais, antes de terminar o seu mestrado. Porque é que procurou desde cedo essa vertente prática?

Em primeiro lugar, desde cedo percebi que a formação extracurricular e o contacto com a realidade me iriam dar oportunidades que a formação académica, por si só, não poderia oferecer. Por outro lado, queria conhecer o mercado de trabalho dos equinos por dentro. Sempre tive consciência de que era um mercado muito competitivo e queria experienciá-lo e preparar-me para as dificuldades que sabia que iria encontrar.

Como e quando é que surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro?

Quando terminei a formação, na Universidade de Évora, estava decidida a procurar uma posição que me permitisse trabalhar apenas com cavalos. Trabalhar em Portugal era uma ideia que me agradava muito, mas, sabendo que este seria um cenário difícil, comecei a tentar abrir portas noutros países. Pensei que o Reino Unido seria uma ótima experiência e, pressionada pela situação do Brexit, tratei logo de me inscrever no Royal College of Veterinary Surgeons e fui chamada para algumas entrevistas. Em pouco tempo percebi que tinha uma brecha grande no meu CV e que isso me estava a sabotar a entrada – não tinha experiência extracurricular no estrangeiro. Candidatei-me para externships, na tentativa de ganhar experiência e conhecer hospitais onde pudesse ser integrada. Foi assim que cheguei até à Irlanda. Cheguei uma semana antes de a pandemia irromper e, quando os voos começaram a ser cancelados, achei que estava na altura de voltar para casa. No entanto, foi precisamente nesse momento que me foi oferecida a oportunidade de ficar num dos hospitais da zona e começar o internato.

Como é que é um dia de trabalho normal para si? O que faz?

Eu sou interna do hospital e o internato é um ano de formação intensa, no qual somos envolvidos e integrados nos procedimentos e na rotina da clínica. Um dia normal começa as 7 da manhã com os exames físicos e laboratoriais e os tratamentos dos animais internados, às 8h reunimos a equipa e fazemos a apresentação dos casos e o plano dos tratamentos, a partir daí dividimo-nos, os internos são distribuídos pelas diferentes áreas no hospital e rodamos semanalmente.

Como é que foi a adaptação a um trabalho fora de Portugal?

A adaptação não foi fácil, mas penso que foi também muito condicionada pela situação pandémica que a Europa atravessa. É verdade que muitas vezes chegamos ao estrangeiro e nos deparamos com oportunidades muito atrativas do ponto de vista profissional, mas, do ponto de vista pessoal, esta situação deixa-nos sempre alguns “nós” no estômago. O trabalho é desafiante e às vezes é necessária alguma capacidade de adaptação para lidar com várias formas de trabalhar, tentando fazer o melhor possível, mas o balanço geral é positivo.

Quais os seus planos para o futuro?

Tenciono continuar a lutar por oportunidades que me realizem a nível profissional, mas os condicionamentos que vivemos hoje também me fazem pôr outros valores em perspetiva, nomeadamente a nível pessoal. Quero acreditar que o panorama vai melhorar. Um passo de cada vez.

 Que conselhos dá aos recém-licenciados em medicina veterinária que estão a ter dificuldades em ingressar no mercado de trabalho em Portugal?

Penso que neste momento temos de ser flexíveis e resilientes no sentido de nos ajustarmos às condições e às oportunidades que surjam, sejam elas quais forem. Acho que a entrada no mercado de trabalho deve ser uma prioridade, ainda que possa não ser na área pretendida, pois são experiências e perspetivas que se adquirem e, mais tarde, poderão direcionar-se para o caminho pretendido. Se não conseguirem um emprego tentem estagiar para ganhar experiência na área que pretendem seguir. Simplesmente, não parem.

Como é que avalia o estado atual da medicina veterinária?

A meu ver, Portugal está a posicionar-se muito bem a nível clínico/científico. Os serviços prestados são cada vez mais especializados e a qualidade do serviço também tem correspondido. A nova legislação e as mudanças culturais, principalmente relativas aos animais de companhia, têm ajudado no processo, mas ainda há muito trabalho a fazer. Infelizmente, a gestão financeira continua a ser um fator limitante na clínica em Portugal e isso acaba também por ter impacto na gestão dos casos. Senti que aprendi muito junto dos colegas que tive oportunidade de acompanhar ao longo da minha formação. Essa bagagem tem sido essencial no meu percurso. Contudo, é com pena que continuo a ver tantos colegas que, como eu, se viram na necessidade de deixar Portugal em busca de uma remuneração justa. Considero urgente travar a formação de médicos veterinários em Portugal. Os recursos deveriam ser alocados na qualidade do ensino.

*Artigo publicado originalmente na edição 143, de novembro de 2020, da VETERINÁRIA ATUAL. [1]