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“A utilização de insetos é uma das possíveis soluções para a escassez nutricional que se espera”

A produção de insetos como fonte nutricional em animais e humanos tem sido apregoada por diversos países e, em Portugal, o médico veterinário Daniel Murta [1] é um dos maiores porta-vozes da causa. Agenda InsectERA [2] é o nome do projeto que está a promover – inclui 38 empresas e centros de investigação − e pretende colocar Portugal na vanguarda da indústria dos insetos, como solução que vem reforçar a sustentabilidade ambiental no setor agroalimentar e não só.

O Daniel, além de médico veterinário, é também docente de Medicina Veterinária no Instituto Universitário Egas Moniz, diretor geral e acionista da Ingredient Odyssey SA (EntoGreen [3]), e um pioneiro e ativista na causa da produção de insetos para a alimentação humana e animal. Como chegou até aqui?

 

O meu percurso é um exemplo da abrangência que a Medicina Veterinária pode assumir. Eu era o pior aluno da minha escola, tendo chumbado na segunda classe. A minha mãe achou que, como não tinha muito jeito para a escola, o melhor seria ir trabalhar para o campo com o meu avô, que tinha uma exploração pecuária. Desde pequeno que fui talhado para ser agricultor e isso acabou por influenciar todo o meu caminho. Fiz a escolaridade toda a pensar sempre que um dia ia ter vacas. Quando me apercebi já tinha entrado na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa. Mas este caminho foi feito a pensar que um dia ia voltar para a terra para ser médico veterinário de vacas. No entanto, a meio do percurso, percebi que gostava de tentar um caminho diferente e acabei a fazer um estágio e tese de mestrado em cirurgia de tecidos moles, com desafios cardiovasculares, nomeadamente no cão. Assim que terminei a tese, percebi que afinal valia a pena experimentar outras matérias e acabei por fazer um doutoramento em biologia molecular, com ratinhos transgénicos. Entretanto, durante o doutoramento, assisti a uma TED Talk que me foi enviada por uma colega, que achou que o assunto seria a minha cara. O tema era: Why not eat insects? Isto foi em 2011 e, a partir desse dia, começou a história dos insetos na minha vida. Nesse momento, percebi o verdadeiro impacto da ciência, e que a ciência aplicada poderia ter na economia, no ambiente e na vida das pessoas. Por isso, considerei que deveria aproveitar as ferramentas que tinha desenvolvido ao longo do meu percurso − enquanto médico veterinário e estudante de doutoramento − e aplicá-las em ambientes diferentes, tendo agarrado com força a vertente industrial.

Assim, desafiei o meu irmão e começámos a criar uma empresa para a produção de insetos para a alimentação humana, mas naquela altura nenhuma entidade governamental − que geralmente apoiam startups − queria estar ligada à temática dos insetos. Tivemos muitas portas fechadas e muitas indecisões.

 

“Este projeto demonstrou que a produção de insetos é algo viável em Portugal e que podia passar de uma escala muito reduzida para uma escala industrial”

No final de 2013 − quando já tínhamos muitos desenvolvimentos, mas ainda sem apoio − no âmbito de uma reunião da direção da Sociedade Portuguesa de Ciências e Veterinárias, da qual faço parte, o Dr. Simas Monteiro, na altura secretário-geral da FPAS, sugeriu que falasse com a Dra. Olga Moreira, Coordenadora da Estação Zootécnica Nacional (EZN), – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), no Vale de Santarém. Contactei-a e ela abraçou o projeto de imediato. Aí começámos a dar os primeiros passos. Em março de 2014, já estava a fundar a empresa Ingredient Odyssey − detentora da marca EntoGreen. As coisas arrancaram logo com força, depois de conseguir o primeiro apoio institucional que basicamente nos deu a casa e o alento que precisávamos. O processo foi continuando e, em meados de 2015, o INIAV recebeu um e-mail de um outro empreendedor ligado à indústria dos insetos, cuja ideia era utilizar insetos em afluentes pecuários, tendo promovido a nossa reunião. Da junção das duas ideias, criou-se um novo conceito: a utilização da mosca soldado-negro como ferramenta na transformação de subprodutos vegetais em nutrientes para plantas e animais.

 

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No final de 2015 foi submetido um projeto em co-promoção no âmbito do PT2020, liderado por mim, que utilizaria a mosca soldado negro numa conversão de subprodutos vegetais e na fertilização de solos agrícolas e alimentação de aves, reunindo vários parceiros. O projeto EntoValor foi aprovado, criando-se assim um primeiro consórcio de cinco entidades, liderado por nós, e envolvendo o INIAV, as Rações Zêzere, a Agromais e a Consulai. Este projeto foi uma prova de conceito e demonstrou que a produção de insetos é algo viável em Portugal e que podia passar de uma escala muito reduzida para uma escala industrial. Validados os conceitos, no início de 2020 submetemos um projeto inovação produtiva, também no âmbito do PT2020, que permitiu transformar os desenvolvimentos feitos no EntoValor à larga escala. Esta candidatura permitiu fechar o financiamento da nossa empresa, envolvendo ainda uma capital de risco privada − a Blue Crow Capital − e uma pública − o 200M do Banco Português de Fomento –,transformando o setor dos insetos em realidade em Portugal.

 

E então surgiu a ideia de realizar a agenda mobilizadora InsectERA…

Sim! O maior desafio aqui é que se o setor dos insetos não existe verdadeiramente, mas o mais importante é explicar que os insetos não são o setor em si, mas um elo de ligação entre setores. O objetivo passa por ligar os membros dos setores a montante e a jusante e desafiá-los para se integrarem numa corrente de economia circular em que nós recebemos subprodutos de várias indústrias a montante, utilizamos os insetos como ferramenta e criamos produtos de valor acrescentado que não existem atualmente no mercado, mas podem substituir produtos que são essencialmente importados para indústrias a jusante. Fecha-se assim um ciclo de economia circular, que dá mais eficiência ao setor agroalimentar nacional e que cria novos produtos e matérias-primas, aumentando a resiliência do País e a independência de produtos importados. Esta ideia foi aprovada na primeira fase do concurso e, recentemente, no final de 2021, foi apresentada no Porto Leixões a vários Ministros do Governo português, tendo recebido uma aceitação elevada.

“[A utilização de insetos para a alimentação animal e humana] é uma das possíveis soluções para a escassez nutricional que se espera com o aumento da população mundial, mas também com a alteração dos hábitos de consumo”

De realçar, que o conceito tem sido apregoado noutros países, nomeadamente nos Países Baixos. Desde 2013 que a Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) defende a utilização de insetos como fonte nutricional em animais e humanos, essencialmente como forma de valorização de subprodutos das atividades agrícolas que, de outra forma, seriam desperdiçados. Esta é uma das possíveis soluções para a escassez nutricional que se espera com o aumento da população mundial, mas também com a alteração dos hábitos de consumo. O problema é real e tem vindo a agravar-se com o aumento da produção animal global, ao atingirem-se níveis de necessidade de produção de rações para animais, ano após anos, e com a desertificação dos solos. Basicamente, o recurso aos insetos é uma forma de dar mais eficiência ao ciclo de valor dos nutrientes.

E de poupar o ambiente também, não é?

Sim, o objetivo principal é criar produtos finais de elevado valor, a nível local, reduzindo importações e transporte, o que só por si já tem um impacto ambiental positivo, mas, acima de tudo, também permite aumentar a eficiência de utilização dos recursos naturais. Há que recordar que cerca de 25% a 30% de todos os produtos vegetais que são criados não chegam à mesa dos consumidores. Portanto, nós temos uma cadeia de valor alimentar muito pouco eficiente. Os insetos utilizam esses subprodutos! Estamos a falar de produtos que podiam estar na mesa das pessoas − são completamente saudáveis e não representam risco −, só não estão porque os consumidores são muito exigentes. Os insetos dão-lhes uma segunda vida.

E quais são esses novos produtos?

No caso da EntoGreen, os produtos que nós estamos a gerar são a proteína de inseto para alimentação animal que vai substituir parcialmente, por exemplo, a farinha de peixe e outras fontes proteicas de elevado valor − Portugal está completamente dependente do exterior, não tendo grande capacidade para produzir estes produtos. No entanto, a agenda InsectERA vai muito além disto, não se fixa de todo naquilo que a EntoGreen faz hoje, ela cria ferramentas também para outras empresas similares para o setor agroalimentar, quer a montante, quer a jusante.

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De que forma se apresenta a InsectERA?

Identificámos que o setor dos insetos tem quatro grandes pilares de atuação que passam pela utilização de insetos para a alimentação animal; utilização de insetos para a alimentação humana – as duas grandes aplicações que são apregoadas a nível internacional −, e mais duas que consideramos de elevado valor: a utilização dos insetos como fins de bio industriais; e a utilização dos insetos como ferramenta de biorremediação.

A utilização dos insetos como fins de bio industriais inclui, nomeadamente, a sua utilização dos seus óleos para produção de cosméticos, espessante em tintas, entre outras, portanto uma aplicação cem por cento industrial. Por outro lado, da quitina dos insetos pode produzir-se quitosano − um produto de valor acrescentado e que pode ser utilizado para diversas finalidades, desde bioplásticos, produtos cosméticos, cicatrizantes ou modeladores de cabelo.

Por outro lado, a utilização dos insetos como ferramenta de biorremediação − também muitas vezes esquecido, embora alguns países estejam a apostar nela − é talvez a atuação com maior impacto ambiental positivo. Significa, por exemplo, utilizar os insetos para transformar efluentes pecuários ou resíduos orgânicos domésticos em fertilizantes para os solos. Depois, obviamente, estes insetos não vão para a cadeia alimentar, serão sim utilizados como fins industriais, por exemplo, produção de biodiesel ou para produção do tal quitosano para bioplásticos. Estamos, portanto, a falar da eliminação de problemas ambientais, transformando-os em soluções reais para a economia portuguesa.

Quando falamos destas aplicações, muitas vezes as pessoas pensam que estamos na esfera da ilusão ou longe do mercado, mas não, estamos a falar de níveis de prontidão da tecnologia (TRL) elevados. O input financeiro e de networking que a agenda vem trazer permite que em poucos anos estes produtos já estejam no mercado, favorecendo a indústria portuguesa face a outros países que, em todo o caso, já investem várias centenas de milhões de euros neste setor. Portanto, é um empurrão final para transformar todo um setor e desbloquear soluções que não estão num horizonte temporal de chegada ao mercado em grande escala tão próximo, mas que já são realidade.

Depois ainda há um pilar transversal e que é gerado pelos outros quatro, que se chama InFrass – fertilizante orgânico. Nas suas atividades transformadoras de subprodutos, os insetos geram um fertilizante orgânico que tem elevado valor para os solos, com capacidade de retenção de água e de fertilização dos solos e nutrição das plantas. Mas este fertilizante orgânico, internacionalmente conhecido como insect frass, vai além disso, pois tem na sua constituição pequenas partes de insetos, que vão ser estimuladoras da imunidade da planta e estimuladoras do desenvolvimento radicular.

Um exemplo muito claro da aplicação deste tipo de soluções, e que também estamos a desenvolver no âmbito da InsectERA e da EntoGreen, passa pela temática do Olival Circular. O setor da olivicultura no Alentejo está em risco de parar, porque não há possibilidade de escoar o bagaço de azeitona que está a ser gerado e de lhe dar um destino adequado. O que nós estamos a fazer é tornar os insetos numa ferramenta que permita transformar este bagaço de azeitona em proteína, em óleo e em fertilizante orgânico para os solos. Se a proteína e o óleo vão para a alimentação animal, substituindo em alguma medida a importação de farinha de peixe e de outras fontes proteicas de elevado valor biológico, o fertilizante orgânico produzido pela bioconversão do bagaço de azeitona pode voltar para os solos dos olivais do Alentejo ou de outras regiões, contribuindo para que a nutrição dos solos, mas, essencialmente, para que a microflora do solo seja preservada, devolvendo nutrientes e favorecendo a vida e o ambiente. Portanto, é na verdade um sistema circular em que nós agarramos num desafio ambiental e devolvemo-lo como uma solução nutricional para os solos e para os animais. Este tipo de desafios circulares são multiplicados várias vezes dentro da agenda mobilizadora InsectERA.

“Desde 2013 que a Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) defende a utilização de insetos como fonte nutricional em animais e humanos, essencialmente como forma de valorização de subprodutos das atividades agrícolas que, de outra forma, seriam desperdiçados”

Qual o objetivo futuro?

Um dos principais objetivos da agenda é alavancar a construção de novas unidades industriais. Estão previstas três novas unidades industriais de produção de insetos, uma unidade de produção de quitosano, um centro logístico e dois centros de investigação − um no âmbito da biorremediação, a ser criado no INIAV, e outro no âmbito da One Health, a ser criado no Instituto Universitário Egas Moniz.

Entre os objetivos da Agenda InsectERA estão:

A Agenda InsectERA está estruturada em quatro eixos principais de atuação com objetivos definidos:

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 156 da revista VETERINÁRIA ATUAL [6], de janeiro de 2021.