Veterinários portugueses pelo mundo

“Nunca tive tanto orgulho de ser e dizer que sou veterinária”

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Inês Ajuda, médica veterinária, gestora de investigação na ONG Compassion in World Farming

 

Qual a sua área de especialidade e porque escolheu essa área?

O bem-estar animal de animais de produção é a minha área de especialidade. Lembro-me de decidir que queria seguir esta área no primeiro ano da faculdade, depois de ter a minha primeira aula de bem-estar animal.

Como surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro? Onde trabalha neste momento?

Foi do mais simples que podia ter sido. Procurei por trabalho no Reino Unido na área da medicina veterinária e do bem-estar de animais de produção. Encontrei o meu trabalho atual, concorri e fiquei com a vaga. Trabalho como gestora de investigação para a equipa que trabalha com empresas do sector agropecuário na ONG Compassion in World Farming.

O meu trabalho passa por dar apoio técnico à equipa sobre bem-estar animal de qualquer tipo de animal de produção, sendo os principais galinhas poedeiras, frangos, vacas de leite e de carne, porcos, coelhos, perus e codornizes. Este conhecimento é utilizado para ajudar as empresas, numa espécie de consultoria, a melhorarem o bem-estar animal nas suas cadeias de fornecimento de produtos animais. Passo muitas horas no escritório, mas tenho que me deslocar frequentemente na Europa para reuniões e visitas a explorações com as empresas com quem trabalhamos.

O que a fez tomar a decisão de ir para fora de Portugal?

Sempre soube que gostaria de abrir horizontes e ir trabalhar para fora do país. Esta frase é dita constantemente quase como um chavão, mas a verdade é que muitas vezes dou comigo em reuniões a partilhar a maneira como fazemos as coisas em Portugal e para os meus colegas é uma novidade. E vice-versa. Experienciarmos culturas diferentes ajuda-nos a ser criativos, bem como muito mais compreensivos com quem nos rodeia no dia-a-dia.

Quais as diferenças que encontra entre os métodos de trabalho nos dois países? Ou seja, como é um dia de trabalho normal? O que faz?

A ética de trabalho na organização onde estou inserida é fabulosa. Temos flexibilidade de horários e ninguém é julgado por sair à hora certa. A minha equipa é espetacular e muito bem coordenada. Não sei se é uma característica do país ou não, provavelmente sim. Mas devo confessar que tenho saudades de um almoço mais descontraído (e às vezes um pouco mais prolongado) entre colegas, ou do cafezinho a meio da manhã. Não há como o Português no que toca a calor humano e simpatia.

Como é viver fora de Portugal? Conseguiu adaptar-se bem?

Sim, melhor do que estava à espera (diz ela enquanto se rói toda cada vez que vê fotos dos amigos na praia nas redes sociais). Brincadeiras à parte, não é assim tão mau. Se trabalhasse mais horas no campo, como fazia em Portugal, a minha opinião seria diferente.

Do que mais tem saudades de Portugal?

Da família, dos amigos, da comida, do tempo e da descontração e simpatia Portuguesas. No entanto, o facto de viver em Londres permite-me fazer viagens regulares a Lisboa para matar saudades.

Quais os seus planos para o futuro?

Gostava de continuar a trabalhar na área e crescer na carreira. Ter uma equipa de pessoas técnicas coordenada por mim é um dos próximos passos.

Equaciona voltar a Portugal?

Quem não gostaria de regressar ao melhor país do mundo?  Tenho confiança que vou encontrar o meu lugar ao sol no nosso país. Mas acho que ainda vai demorar um pouco.

Se sim qual o trabalho/projeto gostaria de desenvolver?

Gostaria de desenvolver a área onde estou a trabalhar agora em Portugal. Acho que a maioria das empresas Portuguesas não está a comunicar sobre o bem-estar dos animais utilizados para fabricar os seus produtos, ou até mesmo a trabalhar nessa área. Mas fico muito feliz de saber que algumas já começam a fazê-lo.

Que conselhos dá aos recém-licenciados em medicina veterinária que estão a ter dificuldades em ingressar no mercado de trabalho?

Não fechem horizontes, não neguem à partida uma ciência que desconhecem. Se me dissessem – quando acabei o curso – que ia ser feliz a fazer o que faço mesmo sem sair para o campo todos os dias nunca, mesmo nunca acreditaria. E a verdade é que sou e nunca tive tanto orgulho de ser e dizer que sou veterinária. É incrível o que podemos fazer com o conhecimento que adquirimos no curso de veterinária.
Como vê o estado atual da medicina veterinária em Portugal e no mundo?

Muito díspar. Em Portugal só sei o que oiço dos meus colegas neste momento e a maioria não se sente valorizado. Aqui no Reino Unido sinto que valorizam a nossa profissão e é espetacular a força que têm as palavras “Eu sou veterinária”. Na China por exemplo, onde também trabalho, ser veterinário é uma profissão pouco nobre e que muitos evitam, principalmente se se é veterinário de grandes animais.

Qual o seu sonho?

Continuar a ser feliz com o que faço e ter orgulho nisso.