Um Dia Com…

Margarida Câmara: “O que fazemos é sempre pouco”

Margarida Câmara assumiu a direção do Canil Municipal de Évora em 2012 e “desde aí que não abatemos animais”. Admite que é difícil porque “vivemos sempre em sobrepopulação”, mas a responsável aposta na castração maciça dos animais e, em conjunto com funcionários e voluntários, está sempre à procura de novas iniciativas para “educar a população e trazê-la ao canil, bem como para promovermos as adoções responsáveis, nem que seja para o estrangeiro. Um objetivo que queremos aumentar”.

Apesar da dura realidade do canil, Margarida Câmara confessa que tenta sempre acreditar no melhor que há nas pessoas salientando que “se nos fecharmos aqui no nosso canto, a dizer mal de tudo e todos não conseguiremos nada. Temos de aproximar as pessoas do canil, levando os animais a elas porque sabemos que esta realidade é muito dura para algumas pessoas conviverem”.

No início de janeiro, quando visitámos o Centro de Recolha Oficial CRO (vulgo Canil) de Évora, estavam alojados 60 cães e apenas uma gata, que já estava reservada e cuja adotante a veio buscar precisamente nesse dia. Margarida Câmara reconhece que tem sido mais fácil controlar a população de gatos: “Temos chegado sempre ao final do ano com um ou dois gatos apenas”. Porque “há várias colónias aqui na zona cujos animais já foram esterilizados e são acompanhados e alimentados por voluntários e temos apostado muito no Pegar e Largar”, um projeto CED – Captura, Esterilização e Devolução. Com os cães é mais difícil porque “estamos numa zona ainda muito rural e há muitos animais de quinta que andam à solta e acabam por andar pelas ruas e vêm cá parar”.

MargaridaCamara2-veterinariaatual

MargaridaCamara3-veterinariaatual

A adoção de gatos também tem aumentado porque as pessoas reconhecem que os gatos são melhores para ter num apartamento e de tratar. “Os cães são mais ‘fáceis’ de abandonar porque requerem mais acompanhamento e atenção, com as idas à rua e os passeios”, diz a médica veterinária. O Canil funciona das 08h00 às 12h00 e das 13h00 às 16h00, mas a diretora trabalha habitualmente das 09h00 às 17h30 e refere que “muitas vezes abrimos o portão depois da hora de fecho porque as pessoas veem-nos cá dentro e pedem para tratar de assuntos pendentes”.

Margarida Câmara refere que tenta cumprir horário para conseguir ter uma vida o mais normal possível, mas mesmo assim à 2ª e 3ª feiras leva consigo o Valentim (cão do canil) para a terapia na Associação Terapia: “vou buscar o meu filho e deixo-o no futebol e depois vou com o Valentim à terapia”. À 5ª feira fica normalmente até mais tarde: “18h00/18h30 porque o meu marido vai buscar a criança. E se tiver alguma urgência posso contar com o apoio dos avós. Por vezes também acabo por voltar se temos um animal atropelado, por exemplo“. Se for necessária intervenção de ortopedia, Margarida Câmara explica que trabalha com um colega de Lisboa para onde envia os casos mais complicados.

MargaridaCamara4-veterinariaatual

MargaridaCamara5-veterinariaatual

 

Projeto Fiel

O CRO de Évora é um dos mais ativos em termos de iniciativas destinadas à população em geral ou a grupos específicos como jardins-de-infância, escolas, idosos, pessoas com deficiência, detidos, etc., nomeadamente através do Projeto Fiel, que pretende alterar comportamentos e mentalidades relativamente aos animais de companhia, em especial aos cães e gatos. Mesmo assim, a diretora considera que “o que fazemos é sempre pouco” porque “vivemos sempre em sobrepopulação”, uma vez que o canil já não abate animais desde 2012, altura em que Margarida Câmara assumiu a direção.

Através do Projeto Fiel – criado em 2007 – o CRO, em colaboração com instituições e empresas locais, organizam cada vez mais iniciativas para “educar a população e trazê-la ao canil, bem como para promovermos as adoções responsáveis, nem que seja para o estrangeiro, um objetivo que queremos aumentar”.

O Fiel Out of Portugal já promoveu a adoção de cerca de 50 animais em 2016 e 2017 para a Holanda e Bélgica e também Alemanha. Margarida Câmara explica à VETERINÁRIA ATUAL que “estes países não têm problemas de sobrepopulação animal, nem animais abandonados porque há muito que instauraram políticas de esterilização maciça e de educação da população”.

MargaridaCamara1-veterinariaatual

 

A médica veterinária considera que “o mais difícil é criar a rede de contactos e nós já temos dois intermediários, uma senhora holandesa residente em Estremoz e um jovem estudante de Medicina Veterinária, da Universidade de Évora, com dupla nacionalidade, que fazem a ponte entre o Canil Municipal e as associações protetoras dos animais com que trabalhamos nesses países”.

As famílias candidatas são, primeiramente, visitadas por um elemento dessas associações para ver se têm condições para receber os cães, e só depois é que formalizam o pedido. Os animais são transportados de Évora para o aeroporto e daí seguem de avião para os adotantes, uma viagem com “valores acessíveis”, assegura. Os cães são todos esterilizados, chipados, vacinados, desparasitados e testados para a Leishmaniose. Em 2016, o Canil de Évora teve 206 adoções e em 2017 subiram para 272. As instalações do CRO são antigas e precisam de obras, que a diretora espera poder fazer em breve, nomeadamente “alargarmos para o terreno ao lado, que também pertence à câmara municipal. E fazermos mais boxes para os cães”. E eventualmente uma sala de tratamentos/cirurgia um pouco maior porque a atual é exígua.

Aproximar a comunidade do Canil

Margarida Câmara conta-nos que a sua visão para o canil tem como objetivo promover a adoção, mas também a socialização dos animais. Sempre seguida pela sua cadela Salsa, que adotou no canil e que vem consigo para o trabalho todos os dias, considera que “os canis sempre estiveram muito isolados do resto da sociedade e assim é muito difícil chamar as pessoas a nós, temos promover a interação destes cães com a sociedade, de os valorizar, de mostrar que os cães saem daqui, que correm e saltam como qualquer outro animal e que são… até felizes”.

Daí a importância dos voluntários que vêm passear os animais, que lhes dão carinho e da organização de iniciativas como as Cãominhadas e as várias Campanhas de adoção que o CRO/Projeto Fiel promove ao longo do ano, como por exemplo na Feira de S. João. “Temos sempre lá um stand com atividades e animais para adotar. Mas quem os quiser adotar tem depois de vir ao Canil e preencher o formulário, etc. não damos nenhum animal na feira, para evitar a adoção por impulso”.

Assumindo que muitas adoções irresponsáveis se devem ao desconhecimento das pessoas do comportamento e linguagem animal, a diretora refere também que o serviço organiza vários workshops gratuitos, uma vez por mês, rotativamente nos vários bairros da cidade para ensinar os donos a entenderem os seus cães. “São principalmente treinos de obediência básica que ensina o animal a sentar, a passear à trela, etc.”, educando os cães (e os donos) para que estes se enquadrem melhor na família e na sociedade.

MargaridaCamara6-veterinariaatual

 

Com as ações que o Projeto Fiel tem dinamizado muitas pessoas sentem a abertura do Canil e acabam por se aproximar e se tornarem voluntários para passear os cães, o que acontece todos os dias, além de também serem levados (em grupos, de manhã e de tarde) ao parque exterior contíguo ao canil. A maioria dos voluntários são jovens, como a engenheira informática Marta Correia, que vem ao CRO quase todos os dias. Confessa-nos que gosta de animais. “Comecei a vir em abril de 2016 e nunca mais parei”.

Do Reiki à prisão

A abertura de Margarida Câmara à colaboração com outras entidades de Évora leva a que várias instituições lhe proponham colaborações “e aceito tudo o que posso e vejo que pode ser benéfico”. No dia em que visitámos o Canil estiveram também crianças (dos três aos seis anos) de uma escola da Associação de Paralisia Cerebral de Évora, uma escola que a educadora Maria João Valverde nos explica que “pratica a inclusão, tendo várias crianças portadoras de deficiência em conjunto com outras crianças”. Indagámos e quase todos tinham animais em casa.

Para os receber, além da diretora do Centro – que lhes mostrou como auscultar um cão (de peluche) ou como lhe colocar um penso numa ferida – estava também uma outra veterinária voluntária e uma jovem, igualmente voluntária.

O pessoal efetivo do Canil é composto pela médica veterinária, uma funcionária administrativa, um fiscal e cinco tratadores, “todos os restantes são voluntários, entre veterinários que vêm ao canil e/ou participam nas campanhas de esterilização das colónias de gatos (sempre à quinta-feira) ou que promovemos periodicamente para os munícipes mais carenciados e os jovens que vão passando por cá, de que sempre vai ficando um ‘núcleo duro’ de quatro ou cinco pessoas”, diz a diretora.

MargaridaCamara8-veterinariaatual

Também a Fusion Tau (associação terapêutica) “nos procurou para saber se gostaríamos de ter terapias com os nossos cães e aceitámos”. Naquele dia, coube à reikiana voluntária Vera Varela vir fazer a sessão com uma das cadelas do canil. “Esta é uma terapia cada vez mais explorada com os animais e o nosso núcleo já trabalha com animais há cerca de um ano” explica Vera Varela, adiantando que “esta é uma terapia completa que não tem contraindicações e estamos a ter bons resultados com animais com mais medos e traumas, o que lhes dificultava a possibilidade de adoção, ajudando-os a ficarem mais soltos e a confiarem no Homem”. Margarida Câmara conta o caso de “um cão que nem saía do canil e que depois do Reiki já foi numa Cãominhada até ao centro da cidade”, mas acrescenta: “Não sei se funciona ou não, mas a verdade é que é mais uma possibilidade destes animais se relacionarem com pessoas e terem momentos calmos”.

MargaridaCamara7-veterinariaatual

 

O Fiel na prisão é outro projeto que já teve duas edições, que na próxima primavera deverá continuar. “Os cães precisam de contacto humano e de serem treinados, pelo que nos lembrámos que a prisão também é um ambiente muito pouco enriquecido que este projeto poderia trazer benefícios aos ‘residentes’ das duas instituições”. E os resultados têm saído muito positivos, tendo até um recluso adotado o ‘seu’ trainee, que está em casa com a família à espera do dono.

‘Mil e um’ projetos

O limite parece ser a imaginação. A médica veterinária vai-nos contando as várias iniciativas do CRO/Projeto Fiel, quando uma pessoa vem responder à ação que estava a decorrer naquela altura: a troca de mantas e outros agasalhos para os animais do canil, por um calendário com fotos dos animais lá alojados. “O calendário foi oferecido por dois patrocinadores da cidade e assim as pessoas ajudam e nós podemos concentrar os recursos do Canil em, por exemplo, esterilizar mais animais”. Como esta vai havendo iniciativas periódicas, como o Casacão (também para trazer agasalhos), ou para trazer garrafas de plástico para os animais brincarem, entre muitas outras (que podem ser seguidas na página do Projeto Fiel no Facebook).

No que diz respeito ao dia-a-dia no CRO, a responsável leva-nos por uma visita rápida às instalações e explica que normalmente vai ver os animais quando chega, principalmente os que precisam de cuidados médicos urgentes. Os tratamentos de rotina são feitos da parte da tarde. Mas tudo depende dos casos que vão surgindo. “Normalmente é à noite que deixam os animais presos ao portão ou os atiram cá para dentro”, refere. Existe uma zona de quarentena, para dois/três animais, mas “se tivermos algum surto – de Parvovirose ou Esgana, por exemplo, como aconteceu no ano passado – temos de trocá-los para outra zona maior”.

MargaridaCamara9-veterinariaatual

MargaridaCamara10-veterinariaatual

Margarida Câmara refere que os problemas mais comuns “são as diarreias dos residentes e os que chegam com subnutrição ou vítimas de atropelamentos”. O Canil tem também a responsabilidade de recolher os cadáveres dos animais de rua “e que são muitos, principalmente gatos, na maioria atropelados”.

Desligar ‘a ficha’

“Quando é possível prefiro tratar os animais cá fora e deixo a sala quase só para as cirurgias, para causar menos stress”, diz-nos a médica veterinária. Margarida Câmara está no canil desde 2005, logo após o final do curso que tirou em Évora, tendo ido substituir uma colega em licença de maternidade. “Sempre quis ser veterinária, mas inicialmente queria fazer clínica de animais silvestres, até fiz estágio com pinguins na África do Sul, mas depois fui ficando e apaixonei-me por esta área”, revela.

Apesar de já não abater animais para controlar a sobrepopulação, “há decisões que custam sempre e a Medicina de Abrigo é muito desgastante”, reconhece. Para evitar o burnout de que muito se fala na profissão, a médica veterinária diz que aposta em ‘desligar a ficha’ e em manter uma vida o mais ‘normal’ possível. Sair todos os dias para almoçar, “à sexta-feira até almoço com os veterinários voluntários, sair com o marido e com amigos, faço exercício físico”. Nas atividades fora de horas ou ao fim de semana tenta estar presente, mas rodando com os outros funcionários e voluntários. “‘Visto a camisola’ e levo os cães ao aeroporto para as adoções externas, estou no stand na feira, vou às Cãominhadas, faço o que é preciso e acho que é por isso que consigo motivar os outros a participarem”.

Um dia com_margaridacamara_veterinariaatual

Sobre a forma de conseguir gerir os CRO, principalmente a partir da entrada em vigor da lei que proíbe o abate em setembro deste ano, Margarida Câmara reconhece a importância que poderá ter a construção de alguns Centros intermunicipais, mas salienta que “essa não é a solução. Vamos sempre ter sobrepopulação enquanto não se instituírem políticas de esterilização maciça dos animais, de rua e com dono, nomeadamente esterilizações pediátricas, como se defendeu e muito bem no recente congresso sobre Shelter Medicine em Elvas [ver reportagem na edição de novembro de 2017 da VETERINÁRIA ATUAL], essas e todas idealmente minimamente invasivas e que permitem uma rápida recuperação e a rápida devolução dos animais a colónias ou outros locais monitorizados”.

A obrigatoriedade de colocação de chip em cães e gatos também é outra medida que a diretora do canil recomenda, uma medida que, para funcionar, precisa depois de ser seguida de uma apurada fiscalização.