Evento

APMVE mostra em congresso o que melhor se faz na clínica de equinos

O Porto acolheu mais um congresso anual da Associação Portuguesa de Médicos Veterinários de Equinos (APMVE) e mostrou o que de melhor se faz em Portugal na clínica de equinos.

A realidade da APMVE – Associação Portuguesa de Médicos Veterinários de Equinos tem vindo a mudar radicalmente. Nomeadamente no número de associados que compõem esta organização, que representa os médicos veterinários que trabalham na área da medicina e cirurgia de equinos em Portugal. João Crespo, responsável da APMVE, enfatizou no congresso anual realizado no Porto, no final de novembro, que se na edição anterior o número os profissionais que trabalhavam com esta espécie era de cerca de 30, hoje já são perto de 150. “É importante que haja uma boa coesão e união pelo que este congresso, acima de tudo, pretende promover o convívio e a partilha de experiências. Partilha essa que se torna tanto mais grata e útil quando mais participada for.”

João Crespo

Durante dois dias foram vários os temas abordados, não tanto do ponto de vista de revisões bibliográficas, mas antes da experiência pessoal dos vários profissionais que passaram pelo palco da Fundação Cupertino de Miranda.

Revisão da matéria dada
O congresso ‘abriu’ com uma ‘revisão’ sobre a reprodução equina em Portugal, com José Carlos Duarte a falar sobre a evolução desta prática nas últimas quatro décadas. “Há 40 anos não havia luvas que viessem até ao braço”, exemplificou José Carlos Duarte. Uma evolução que envolveu o próprio animal, os médicos e os criadores e até a parte farmacêutica e os medicamentos disponíveis para acompanharem os profissionais nesta evolução.

Falando sobre a reprodução, o criador e o veterinário – o que apelidou de “triângulo muito importante” -, o profissional salientou que atendendo às verbas envolvidas e aos objetivos estabelecidos, a intervenção veterinária especializada é cada vez mais solicitada.

Disse ainda que o criador assume vícios tradicionais e complica, impondo a reprodução dos seus animais mais velhos, e à partida menos aptos para a função. “Recebo muitos estagiários e uma coisa que foco muito não é a oportunidade de fazerem apalpações ou mexerem no ecógrafo, mas antes a dinâmica de lidar com o criador, algo que as universidades ensinam pouco. É com o criador que temos de discutir, de propor as nossas ideias. Temos de arranjar uma maneira de o levar a investir no sentido de termos condições para trabalhar. No final, é ele que nos pede e nos paga os serviços. Para mim, o criador é a figura mais ‘gorda’. Muitos vezes penso: como vou sair do rabo da égua para o escritório do criador? Temos de o envolver e dizer o que vamos fazer.” José Carlos Duarte diz que o veterinário encontra aqui espaço para uma verdadeira assessoria pedagógica, bem como um campo de atuação técnica, verdadeiramente desafiador e motivante. “Digo muitas vezes que na coudelaria temos de estar sempre na folha das receitas. Se passarmos para a folha das despesas percebo que mais tarde ou mais cedo somos dispensados.”

A apresentação de José Carlos Duarte passou ainda por explorar temas como a atrofia testicular nos equinos, e as vantagens e desvantagens do sémen congelado. Segundo Duarte, entre as vantagens está um menor risco e stresse para a égua, um menor custo de transportes, o facto de desta forma haver sémen todo o ano e permitir a abertura a mercados internacionais. Já entre as desvantagens, encontram-se uma grande variação individual em relação à qualidade do sémen, além de o sucesso estar ao redor dos 60%, isto com bom maneio de éguas, boas técnicas de congelação e sémen com qualidade no pós-descongelação.

José Carlos Duarte, médico veterinário desde 1980, sempre trabalhou na área da reprodução de equinos, sendo fundador da Luso Pecus, um centro de recolha e congelação de sémen equino que já congelou, pelo menos até 31 de outubro de 2019, 4830 doses de sémen. Destas, 1958 foram destinadas à exportação. Por este centro já passaram 165 garanhões, havendo nos últimos três anos uma média de cerca de 530 colheitas com destino congelado ou sémen fresco. “Trabalhamos cerca de 30 litros de sémen/ano e inseminámos perto de 300 éguas por ano, sendo para congelado 40 a 50 éguas.”

José Carlos Duarte falou ainda na patologia reprodutiva nas éguas velhas e na bactéria Taylorella, descoberta pela primeira vez na Reino Unidos em 1977, responsável pela metrite contagiosa equina (MCE), uma doença venérea altamente transmissível de equinos.

O maneio e a gestão reprodutiva de uma eguada
De Espanha mas com forte experiência em Portugal, Marta Usón Olaso trouxe as diferentes formas de maneio e gestão reprodutiva de uma eguada. “Cada eguada é diferente e há que saber adaptar-se às condições de cada lugar e saber transmitir aos proprietários as necessidades que temos para fazer um bom trabalho”, comentou a profissional, de resto em linha com as ideias transmitidas por José Carlos Duarte.

A médica veterinária começou por explanar qual o melhor mês para começar, até porque, exemplifica, há clientes que querem começar logo em janeiro. “Mas em janeiro é complicado conseguir bons resultados porque as éguas estão em transição”. Marta Usón falou no facto de Portugal ter uma temporada reprodutiva curta, nomeadamente a Sul, havendo éguas que só começam a clicar em março/abril. Mencionou ainda a necessidade de, por via disso, ser preciso gerir bem o tempo de trabalho, sendo que no centro e norte da Europa a temporada vai até ao final de agosto.

Depois de abordar o tamanho e características da eguada, focou-se nas instalações, nomeadamente na “obrigatoriedade” de ter uma manga segura, quer para o veterinário quer para a égua, disponibilidade de água e ser um espaço coberto. Mais dispensável, ou pelo menos não tão essencial, está o ecógrafo com sombra, para um diagnóstico mais fidedigno, um lugar seguro para o poldro perto da mãe e acesso a eletricidade.

Quanto ao maneio, Marta Usón falou no carácter e trato das éguas e dos garanhões, assim como dos conhecimentos e disponibilidade do pessoal. “Já trataram com cavalos antes? Já conduziram o garanhão antes, para garantir a segurança do veterinário? Há fiabilidade para administração de medicamentos? Há sensibilidade?”.

A profissional explorou ainda os horários disponíveis para realizar as tarefas, nomeadamente o facto de serem altamente variáveis de local para local e, por isso, o médico veterinário correr o risco de ficar um par de horas parado. “Muitas vezes não compensa ir a algum sítio e regressar e, por isso, é tempo perdido.”

Tipos de reprodução, a relação entre a égua e o sémen foram outros temas explorados. Marta Usón abordou ainda um tema muito prático: a distância do veterinário, para assim ser possível ver se a deslocação deverá ter preço fixo ao quilómetro, ou se é interessante avançar para uma avença. “O importante é não fazer perder dinheiro ao cliente e tempo ao veterinário.” A profissional fechou a sua apresentação com casos práticos.

Uma agenda rica em temas e intervenientes
Este congresso anual da Associação Portuguesa de Médicos Veterinários de Equinos foi, sobretudo, pautado pela sua praticidade, no sentido em que os profissionais usaram sobretudo a sua experiência pessoal mais do que exaustivos casos documentados. Ainda no primeiro dia, da parte da manhã, António Rocha trouxe o tema “Reprodução Assistida em Equinos em Portugal: o útil, o possível e o prático”, enquanto Miguel Bliebernicht explorou os “Resultados de duas épocas de transferência embrionária em equinos em Portugal e França: perspetivas futuras”. Manuel Pequito fechou a manhã com o tema “Profissionalização e Competências de Primeiro Dia no contexto da clínica de equinos”.

E se a parte da manhã foi dedicada à reprodução, na parte da tarde foi abordada à área de medicina interna e epidemologia, tendo sido debatido desde asma equina à emergência médica em provas de endurance. O grande destaque foi mesmo para o herpes equino, que “teve direito” a ver explorada a realidade portuguesa, europeia, assim como uma mesa-redonda que versou as estratégias em Portugal para o futuro.

No segundo dia, enquanto na parte da manhã foi versada a medicina de desporto, nomeadamente o maneio da patologia de dígito em cavalos de concurso, a parte da tarde explorava a “cirurgia região do dígito”, nomeadamente a “Neurectomia como abordagem terapêutica para patologia de dígito” e uma masterclass de Tim Greet sobre “Fragmentos ostrocondrais: o passado, o presente e o futuro”.

No final, nos “corredores” do congresso, vários profissionais comentavam precisamente o caráter prático do evento, a qualidade dos palestrantes e a pertinência das intervenções.

O próximo congresso da APMVE vai decorrer em outubro, em Santarém.