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O trabalho em equipa como prioridade

Com a ajuda de uma equipa empenhada e o investimento contínuo em novas terapias e equipamentos, os resultados dão motivação diária para melhorar.

Localizado no Clube Equestre de Janas O Paddock, em Sintra, a Hidrovet – Centro de Reabilitação Equina, abriu em novembro de 2015 e resulta de uma ideia antiga da médica veterinária e diretora clínica, Carolina Nascimento. Com apenas 28 anos, tem um discurso decidido e sabe bem com que rédeas prefere pautar a sua prática clínica.

Sempre lhe fez um pouco confusão a forma como os cavalos recuperavam depois de uma lesão, ela que sempre os teve a título pessoal, e que cresceu no meio deles. “Como é que podíamos voltar a colocar o cavalo a trabalhar? Com que exercícios, com que frequência, como é que se sabe se é demais ou de menos?”, eram questões para as quais não encontrava resposta, o que aumentava mais a inquietação quando os seus cavalos tinham recidivas.

Depois de tirar o curso na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT), em Lisboa, fez algumas viagens ao Norte da Europa, onde o conceito que acabou por criar no seu centro é comum. Tinha algumas ideias, montou o projeto, e dois meses depois de terminar o curso, avançou, absolutamente decidida. “Já estava completamente direcionada para este projeto. Nunca quis fazer outra coisa”, explica. A ela, juntou-se Mafalda Vaz Pinto, também médica veterinária, e braço direito de Carolina, além da amizade que as une.

Proprietária de cavalos, Carolina Nascimento sabia bem a forma como pretendia trabalhar, recorrendo a formas mais convencionais, mas também a métodos alternativos, para a melhor recuperação de lesões nos equinos. Algumas formações depois e muitas outras viagens para aprofundar conhecimentos e conhecer projetos com conceitos semelhantes, o centro Hidrovet começava a ganhar forma com tomadas de decisão importantes: “Não fazemos sessões únicas e recuperamos uma lesão com tudo o que for necessário. Recusamo-nos a fazer algo que não envolva um processo curativo ou que não faça sentido para nós”, explica Carolina.

O balanço destes quase quatro anos não poderia ser “mais positivo”. A diretora clínica contou com o apoio total e incondicional da família. “O ano que passou foi muito bom. Atualmente, temos maioritariamente clientes do Norte da Europa”, conta. As redes sociais também têm vindo a dar o impulso necessário como uma boa montra do trabalho efetuado, especialmente o Instagram, que foi criado há menos tempo e tem sido uma boa surpresa em termos de retorno.

A equipa, composta por duas médicas veterinárias, conta ainda com Carolina Gonçalves, que dá apoio ao maneio dos cavalos – alimentação, rotinas de higiene, escovar, passear no Centro Equestre – e com Filipa Silvestre, que vai concluir este ano o seu mestrado em Engenharia Biomédica e está dedicada à análise do movimento funcional. “A Filipa desenvolveu um método para nós, ainda muito embrionário, que tem por trás um algoritmo matemático que lê o movimento através de uma filmagem”, explica a diretora clínica, adiantando que o centro também aposta em investigação, com o apoio da ULHT, onde também dá aulas como assistente do mestrado integrado.

Defensora acérrima da equipa e do lugar que cada um ocupa, avança à VETERINÁRIA ATUAL que há a hipótese de contratar mais uma pessoa este ano, na área de enfermagem. “O médico veterinário de equinos é visto como o médico que anda na sua carrinha, muito bem equipada, mas sozinho, e isso tem de acabar. A única forma de evoluirmos em medicina veterinária é trabalhar em equipa. Esse sempre foi um gold standard da Hidrovet”, acrescenta. O centro abre regularmente as suas portas a estagiários motivados em aprender mais sobre a reabilitação de equinos.

Investimento contínuo

“Nesta área, a concorrência é muito forte, não se pode estagnar”, afirma, convicta, Carolina Nascimento. Por esse motivo, ao longo destes anos, nunca foi uma opção desistir de investir. “No primeiro ano, quando arrancámos, tínhamos um tipo de eletroterapia que incluía ultrassons e correntes, e passados uns meses, adquirimos um laser de alta intensidade de muito boa qualidade. Passado mais um ano, começámos a fazer ozonoterapia, e no seguinte, iniciámos a medicina integrativa e regenerativa”, sublinha.

O investimento contínuo tem sido uma aposta da Hidrovet. “Nesta área, a concorrência é muito forte, não se pode estagnar”, nota a diretora clínica Carolina Nascimento

O espaço da Hidrovet vai aumentar ainda em 2019, uma vez que vão ser realizadas obras para a criação de novas áreas de consultas, separando-as do internamento. Vai ser uma espécie de subsecção do ambulatório. “Geralmente, é sempre o veterinário que vai ter com o cavalo, e as consultas nos centros de referência começam agora a institucionalizar-se em Portugal. Na sua clínica, o médico veterinário tem todo o tipo de terapias ao dispor. No nosso carro, temos 10% daquilo que podemos oferecer ao cavalo quando nos deslocamos em consultas em ambulatório”, defende a médica veterinária. Com a renovação do espaço, a responsável gostaria ainda de montar um pequeno laboratório.

Ao fim de cada dia, não restam dúvidas: “A nossa arma passa pela aposta na contínua e boa formação, com cursos que demoram tempo, que envolvem vários sacrifícios pessoais, que muitas vezes são realizados longe de casa, mas que têm de ser feitos. Por outro lado, prefiro trabalhar sempre bem-apoiada de equipamentos e de profissionais”, reforça Carolina.

Protocolos personalizados

Os dias começam cedo, com a alimentação dos cavalos internados, às 8h00. “Têm horas muito específicas para comer e fazem várias refeições ao dia, é feito um maneio de manutenção, e caso possam ter uma atividade exterior, têm acesso à guia elétrica”, explica Carolina. A vertente de passeios nos pisos e Paddock resulta de uma parceria muito importante com o Clube Equestre de Janas. “Só temos a agradecer a generosidade e o suporte em instalações, tratadores, guias mecânicas, acesso ao exterior destes cavalos, o que faz uma enorme diferença. Além disso, os donos podem vir e montar os seus cavalos com um piso de sílica de alto rendimento com manutenção diária.”

Durante este tempo, os cavalos começam a aquecer os músculos e a preparar-se para um treino de água. Também aqui, cada caso é um caso e as sessões são personalizadas. Para cada cavalo internado existe um protocolo, que pode ser ajustado ao longo do tempo consoante a evolução da recuperação, desde o cavalo mais debilitado até ao de high performance. “Os cavalos são equipados para fazer a fisioterapia que está integrada no seu protocolo: ou fazem passadeira aquática destinada a casos que já estão num estádio crónico ou a imersão em água gelada e salgada (cold water spa), que é uma máquina estática que está geralmente a dois graus centígrados, com água hípersalinizada e a ideia é criar um meio denso e hiperosmótico, que vai promover uma saída de água das células, fazendo com que o edema passe para o espaço extracelular. O cavalo está ali com o gelo durante 20 minutos, “sempre sob a vigilância de uma das médicas veterinárias para evitar qualquer perigo”, salienta Carolina.

O gelo cria uma espécie de efeito analgésico e anti-inflamatório, e, ao fim deste período, o cavalo sai e “dá-se uma vasodilatação reflexa, ou seja, aquele edema que ficou no espaço extracelular por conta daquele meio hiperosmótico vai embora com a circulação sanguínea. Por isso é que os cavalos que entram com problemas linfáticos graves, em muitos casos, saem melhores. Esta baixa temperatura pode ser feita numa base bidiária e os efeitos prolongam-se durante duas a três horas”. No caso da passadeira aquática, existem vários níveis de água e velocidades, correspondentes às diferentes necessidades dos cavalos internados.

Sempre que necessário, são administrados fármacos, mas, se for possível reduzir a dose com este tipo de terapia em simultâneo, mantendo o cavalo muito confortável, é preferível.

Seguem-se as eletroterapias, áreas onde se trabalha a analgesia e a regeneração de tecidos. “Entram aqui os ultrassons, o laser, as correntes analgésicas, que também podem ser realizadas em ambulatório, e o protocolo pode ainda incluir a ozonoterapia.” Este tipo de terapias realiza-se debaixo de uma luz vermelha, uma espécie de solário com luz quente que proporciona um certo relaxamento depois de os cavalos realizarem tratamentos em água fria. Segue-se uma nova refeição dentro das boxes, voltando às terapias da parte da tarde. “Se eu tiver de fazer ambulatórios, saio e alguém da minha equipa permanece para executar o restante protocolo”, explica Carolina. Uma das vantagens da permanência no centro é o cavalo não estar fechado e manter-se em atividade ao longo de todo o dia, o que facilita a sua recuperação.

Nos casos em que é possível associar acupuntura com ozonoterapia, os resultados têm sido “surpreendentes”, explica a médica veterinária Mafalda Vaz Pinto, até em casos “já considerados em fim de linha”.

Os cavalos podem ainda realizar manipulações fisiátricas, acupuntura e eletroacupuntura em associação às suas terapias. No fim do dia, são aplicadas bandas neuromusculares, usadas habitualmente para perpetuar o resultado das terapias diárias. “A eletroacupuntura é um método de acupuntura que consiste na estimulação dos pontos através da aplicação de uma corrente elétrica nas agulhas, sobretudo com dois objetivos, reduzir dor ou tonificar. A potência é sempre ajustada à tolerância do animal e regulamos a frequência e a intensidade de acordo com a finalidade do tratamento. Assim, quando o que se pretende é tonificar, optamos por baixas frequências associadas a alta intensidade, através das quais obtemos contrações musculares com efeito e duração cumulativos”, explica a médica veterinária Mafalda Vaz Pinto. Quando o que se pretende é reduzir a dor, induz-se a produção de endorfinas através de tratamentos com alta frequência e baixa intensidade. “Os resultados trazidos à prática clínica são positivos, mas é importante ter presente que o sucesso final se deve sempre à conciliação de todas as técnicas disponíveis no centro.”

Nos casos em que é possível associar acupuntura com ozonoterapia, os resultados têm sido “surpreendentes”, explica a médica, até em casos “já considerados em fim de linha”.

“Trabalhar bem e melhor, todos os dias, mais que não seja para honrar a confiança que a família depositou em nós”, é o lema seguido na Hidrovet. A persistência também tem ajudado. “Nunca quisemos descer o nosso preçário para valores low cost, nem entrar no mercado a fazer concorrência com os valores praticados pelos colegas. Ficámos à espera da nossa vez, trabalhámos sempre muito, começámos a ter clientes e o negócio começou a funcionar”, conclui a diretora clínica.

Apoio a provas internacionais

Na Hidrovet, Carolina e Mafalda desempenham as mesmas funções, mas dividem áreas de interesse, substituindo-se quando são necessárias idas ao estrangeiro. Uma das facetas do trabalho de Mafalda é prestar assistência a cavalos em competição. “Se durante a fase de preparação para uma competição, a aplicação das várias técnicas de medicina integrativa diminuem ou/e previnem a necessidade da intervenção da medicina convencional, no período mais próximo de uma competição, e durante a mesma, o uso da medicina integrativa é muitas vezes o único recurso possível de utilizar para ajudar um equino que vai fazer grandes viagens e provas de grande exigência”, reforça a médica.

Uma vez que alguns clientes têm considerado que esta intervenção pode ser determinante para os resultados e para a sua recuperação após o esforço, tem surgido a oportunidade de Mafalda acompanhar equinos a várias provas, das quais se destacam os Jogos Equestres Mundiais de 2018 e o Campeonato da Europa de Endurance 2019.