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Hospital Veterinário de Alvalade: a arca de Rita

Hospital Veterinário de Alvalade: a arca de Rita

Os animais sempre a fascinaram e em criança Rita Esteves devia passar mais tempo no consultório do seu médico veterinário do que em casa. Quis ser médica veterinária e ter o seu próprio hospital. Veterinária já o é desde 98 e o sonho de ter um hospital concretizou-o há cerca de um ano.

Rita Esteves sempre quis ser médica veterinária, daí afirmar sem hesitações: “gosto muito do que faço e é de alma”. Em criança, provavelmente passava mais tempo no consultório do ‘seu’ médico veterinário do que em casa. “O meu médico veterinário de infância era o Dr. Antero Almeida Monteiro e passava lá a vida. Punha-o louco porque nessa altura não havia nada sobre exóticos e eu tinha sempre animais de espécies diferentes”. Observava formigas, teve uma cobra e até mesmo uma macaca. “Toda a minha vida foi passada rodeada de várias espécies”.

Todos estes animais apareciam na sua vida muito em consequência do tempo que passava no médico veterinário” e de o seu pai ter uma quinta em Abrantes “onde aparecia de tudo, desde a cobra atropelada ao pássaro que caiu do ninho e precisava de ser alimentado”. Sempre detentora de uma autêntica arca de Noé, a diretora-clínica do Hospital Veterinário de Alvalade, em Lisboa, revela com emoção que “a vida dos meus pais era complexa porque tanto apareciam cobras de baixo da cama, como baratas no frigorifico porque fazia autênticas cadeias alimentares em casa”. O pior mesmo é quando ocorriam fugas e, nestas ocasiões, “havia castigos para o meu lado”.

O sonho de ter um hospital

Se a infância foi assim, quando entrou na juventude a paixão pelos animais continuou a levá-la para ‘voos’ cada vez mais altos. Ainda nem o curso de Ciências Veterinárias tinha terminado e já trabalhava com o “Dr. Atanásio, em Cascais, o Dr. Antero, em Linda-a-Velha, e o Dr. Pedro Geada, em Alvalade, na clínica VetBrasil”.

Hospital Veterinário de Alvalade: a arca de Rita

Assim se manteve alguns anos até que há oito acabou por comprar a clínica a Pedro Geada. “A VetBrasil começou a crescer e os clientes estavam sempre a perguntar-me quando me mudava para umas instalações maiores”. E de facto era esse o objetivo de Rita Esteves. Porém, encontrar um espaço com dimensões consideráveis não se mostrou tarefa fácil. Mas, como se costuma dizer, quando o Homem sonha a obra nasce ou, neste caso, a médica veterinária sonhou e trabalhou tanto nesse sentido, que a oportunidade acabou por surgir. “Este espaço onde nos encontramos atualmente era uma clínica de medicina humana, daí que já estava muito adaptada às nossas necessidades. Contudo, com a ajuda do meu pai, que é médico, fomos adaptando o que faltava para a transformar num hospital veterinário”.

E foi assim que quase há um ano a VetBrasil deu origem ao Hospital Veterinário de Alvalade, situado apenas a uns metros de distância das instalações da antiga clínica, que presentemente são usadas para “fazermos os banhos e as tosquias”.

A ponte entre medicinas

No Hospital Veterinário de Alvalade “aparece de tudo”: o cão, o gato, mas também pássaros, cobras, ouriços, ratazanas, galinhas, entre outros animais.

E também, em termos de valências, “fazemos tudo, só ainda não temos um equipamento de TAC”, revela a diretora-clínica. O facto de fazer parte de uma família de médicos de medicina humana está bem patente no dia-a-dia de Rita Esteves, já que há casos em que não havendo materiais disponíveis ao nível da medicina veterinária, o pai e os colegas ajudam-na. “Temos o caso de um porco doméstico (mini pig) que teve uma obstrução por cálculos. Esse porco era alimentado com ração de cavalo fez uma litíase de bexiga, não conseguia urinar, e vinha já num estado muito complexo. Como tinha muitas ‘pedras’ na bexiga, nós conseguimos que o Hospital da CUF nos cedesse cateteres suprapúbicos, que em veterinária não temos disponíveis”. Estas situações contribuem para que “cresça imenso porque às vezes há bibliografia sobre o tema, mas depois não há material disponível”.

Hospital Veterinário de Alvalade: a arca de Rita

Dado este e outro tipo de casuística que lhe vai passando pelas mãos, a médica veterinária quer “começar a escrever e a publicar porque temos casos muito engraçados”. Mas agora que criou uma equipa coesa, espera poder vir a ter mais tempo. “No hospital, a nossa principal dificuldade é o facto de a equipa ser maior e, por isso, mais complexa de gerir. Mas aos poucos estamos a conseguir criar uma equipa coesa, que espero que se mantenha por muito tempo”. Atualmente a equipa é constituída por uma equipa de 15 elementos, nove dos quais a tempo inteiro.

Para outros mundos

Em jeito de balanço, Rita Esteves salienta que o projeto “está a correr muito bem” e que já tem “ideias de expansão” até para fora do país. “Fui convidada para ser diretora-clínica de um hospital em Angola, na altura estive quase para ir, mas ainda bem que não fui porque primeiro tinha de fazer o meu próprio hospital”. Abraçar um desafio internacional continua no horizonte da médica veterinária, pois “gosto de projetos que me levem para outros mundos”. Porém, independentemente do que o futuro lhe possa trazer, o Hospital Veterinário de Alvalade será sempre para manter, pois “é o meu bebé”.

“Tem de haver uma parte humana”

Rita Esteves adora o contacto com os clientes e cria “verdadeiros amigos. Temos de ser competentes, mas também tem de haver uma parte humana. As pessoas têm de sentir que gostamos dos seus animais e delas”. Neste sentido tem desenvolvido várias iniciativas no hospital, como o serviço de treino em matilha. “É um treino muito engraçado, pois temos cães com problemas de comportamento que ao fim de três/quatro sessões mudam do dia para a noite”.

 

“Adoro viagens para a selva”

“Sou uma fã de todas as espécies”, declara Rita Esteves. No seu dia-a-dia dedica-se essencialmente à cirurgia e medicina interna e defende que, no que toca à formação, “aprende-se muito com colegas que gostem de ensinar. Muito mais do que fazer as residências, o importante é estar ao lado deles”. Neste sentido, “houve uma fase na minha vida em que todos os fins-de-semana ia para Liverpool para uma reserva de animais selvagens, onde só fazia selvagens de manhã à noite com o colega de lá. E é uma aprendizagem brutal”. E todos os anos, quando chega a hora das férias, a médica veterinária opta por destinos mais exóticos, visto que “adoro viagens para a selva. Vou para países com muita fauna e flora ver os bichos mais estanhos que se possa pensar”. Ainda no ano passado, a diretora-clínica foi para São Tomé e Príncipe porque “queria observar cobras pretas que são muito venenosas”.

No entanto, a médica veterinária não precisa sair do país para estar em contacto com animais mais exóticos, dado que possui “galinhas de todo o mundo, patos bravos, pavões, faisões, cães, gatos, um porco”, etc. Ou seja, contabilizando todos os animais tem “muito mais de 50, sendo que nada disto é para consumo. São só mesmo animais de estimação”.