Veterinários Portugueses pelo Mundo

“Há falta de médicos veterinários na Alemanha e os especialistas são muito valorizados“

Ricardo Abrantes
Médico veterinário, diretor do departamento de cardiologia e medicina intensiva num hospital privado em Frankfurt

Qual a sua área de especialidade e porque escolheu essa área?

Estou a trabalhar em clínica de pequenos animais na área de cardiologia e medicina intensiva. Desenvolvi interesse nesta área durante o curso e estágios intercalares realizados fora do país. Desde cedo que tive contacto com universidades e hospitais privados com enfoque em cardiologia, e onde pude constatar a importância desta área na saúde e bem estar destes pacientes e, por consequência, nos respetivos donos. Além disso é fascinante a interdependência desta especialidade com outras como a medicina interna ou a imagiologia.

Como surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro? Onde trabalha neste momento e o que faz?

A oportunidade surgiu durante o percurso universitário através do programa Erasmus, onde estive dois semestres na universidade de Munique e onde comecei, mais tarde, o meu percurso profissional no departamento de cardiologia. O interesse por esta área e a boa integração no país permitiram-me entrar no mercado de trabalho. Aprender e dominar a língua foi o passo mais importante, seguido da especialização. Estas competências abriram caminho a novas oportunidades. Neste momento estou a trabalhar num hospital privado na zona de Frankfurt como diretor do departamento de cardiologia e medicina intensiva.

O que o fez tomar a decisão de sair de Portugal?

Inicialmente fui atraído pela possibilidade de estudar no estrangeiro. Inevitavelmente fui confrontado com a vida profissional como veterinário na Alemanha e desta forma cresceu rapidamente o interesse em continuar a experiência e explorar mais este mercado de trabalho.

Quais as diferenças que encontra entre os métodos de trabalho nos dois países? Ou seja, como é um dia de trabalho normal?

Não me posso permitir comparar as realidades, pois nunca exerci em Portugal. O ritmo de trabalho na Alemanha é muito elevado e exige eficiência em profissões como a medicina veterinária. É normal iniciar-se um dia de trabalho às 07h30 ou 08h00. Num serviço de especialidade, os pacientes vêm com marcação e isto permite-nos organizar o dia. Frequentemente são apresentadas urgências que têm que ser vistas e tratadas na hora, obrigando a um trabalho de equipa para permitir tratá-las da forma mais eficiente, sem perturbar a ordem dos pacientes com marcação. Normalmente é reservada uma hora para trabalho de escritório, visto que os relatórios para os veterinários referentes são escritos com todo o cuidado. O tempo livre é muito respeitado na Alemanha e tentamos gozá-lo da melhor maneira. Nem sempre é possível devido à carga de trabalho que nos é imposta no dia-a-dia. Os fins de semana num país da Europa central podem ser sempre aproveitados em viagens devido às boas redes de transporte. Por aqui há muito para ver e descobrir.

Como é viver fora de Portugal? Conseguiu adaptar-se bem?

Identifico-me com o provérbio português “Em Roma sê romano“. Na minha opinião, o mais importante para a integração nos países de língua alemã é dominar o idioma, seguido de uma iniciativa própria na absorção da cultura e do modo de vida. Felizmente tive a ajuda de colegas de curso locais que me mostraram os mais importantes aspetos da vida “alemã“. Fiquei bastante supreendido pela positiva ao perceber a forma como os alemães lidam com a vida profissional e pessoal simultaneamente.

Do que mais tem saudades de Portugal?

Sem dúvida da família. Sou natural de Aveiro e a gastronomia com peixe fresco também não se encontra nesta zona. Felizmente há boas ligações entre os dois países e isso permite-me a mim e à minha família de nos encontrarmos com regularidade.

Quais os seus planos para o futuro?

O objetivo é crescer e aprender sempre mais. Tenho interesse em continuar a trabalhar nesta área e, por isso, invisto muito do meu tempo e dinheiro em formações contínuas.

Equaciona voltar a Portugal?

Equaciono essa hipótese a médio, longo prazo. Neste momento concentro-me em construir carreira por aqui. Há alguma falta de médicos veterinários na Alemanha e os especialistas são muito valorizados.

Que conselhos dá aos recém-licenciados que estão a ter dificuldades em ingressar no mercado de trabalho?

No meu período como recém-licenciado sempre dei mais importância em crescer a nível científico para poder aplicar a melhor medicina possível, sempre com vista a fornecer a ajuda mais competente aos nossos pacientes. O consolo e a satisfação em conseguir salvar ou curar pacientes dados como “perdidos“, assim como “desvendar“ os casos mais difíceis são o bem mais valioso na nossa profissão. Na minha experiência fui muitas vezes recompensado nas alturas em que nunca desisti de atingir um objetivo, evitando “remar contra a maré“, mas procurando as melhores correntes. A nossa capacidade de resolução de problemas e de situações difíceis é largamente reconhecida. Esta é uma caraterística muito portuguesa que é valorizada em muitos países europeus. Quem for fluente em outras línguas e tenha a ambição de ir longe a nível profissional pode ter sucesso no estrangeiro.

Como vê o estado atual da medicina veterinária em Portugal e no mundo?

Pelo facto de nunca ter exercido em Portugal, não consigo expressar uma opinião bem fundamentada. Na minha opinião, a ainda reduzida dimensão do mercado não tem permitido que tenham sido possíveis grandes investimentos na nossa área. Acredito que, com o natural desenvolvimento do país e o consequente crescimento do mercado, nos permitam a médio prazo alcançar o nível de outros países.

Qual o seu sonho?

Praticar a medicina veterinária ao mais alto nível e poder chegar ao fim do dia sem remorsos. Mais importante ainda é o sonho de manter este objetivo durante toda a minha carreira profissional para conseguir viver em harmonia com a vida profissional e pessoal.