Medicina Veterinária

Desparasitação: profilaxia continua a ser a melhor arma

Desparasitação: profilaxia continua a ser a melhor arma

Portugal tem acesso às terapêuticas e soluções mais eficazes para a desparasitação de animais de companhia. E apesar de os tutores já estarem mais consciencializados para a importância desta prática, a classe veterinária ainda tem como desafio chamar à atenção para a profilaxia em detrimento do hábito de desparasitar apenas quando existem sinais clínicos.

O país é propício ao aparecimento de parasitas. As condições climatéricas e a temperatura média anual a aumentar também o propiciam, tanto para gatos, como para cães. Na zona geográfica onde Isabel Maia, diretora do grupo do Grupo Hospital Veterinário de Viseu (HVV) atua, em Oliveira de Frades, Viseu e Seia, os parasitas externos mais preocupantes para o cão e para o gato são “as pulgas, as carraças e os flébotomos (transmissor da leishmaniose ainda diagnosticada com relativa frequência no cão, nestas localidades), além de também continuarem a surgir, tanto em gatos, como em cães (mais nos jovens ou imunodeprimidos) bastantes casos de sarnas. No campo das endoparasitoses, tem vindo a diminuir a apresentação de quadros clínicos exuberantes”, explica a médica veterinária.

Têm sido cada vez menos frequentes, na sua prática clínica, as gastroenterites parasitárias com vómito e diarreias “contendo grandes quantidades de ascarídeos, e que eram comuns há uns 15, 20 anos”. Na sua opinião, o que contribuiu para esta realidade foram os programas de desparasitação “cada vez mais completos e acessíveis”, assim como a crescente sensibilização da população para esta necessidade e, não menos importante, “a mudança dos hábitos alimentares e estilo de vida dos nossos animais de companhia.

O facto de terem uma alimentação à base de alimentos processados e terem passado maioritariamente para dentro dos nossos lares diminuiu a exposição a hospedeiros intermediários de muitos parasitas (deixaram de ingerir pequenos roedores, aves e carnes cruas das mais diversas proveniências)”, explica Isabel Maia.

As rotinas do animal de companhia moderno ajudam na prevenção, mas por outro lado continuam a expô-lo. “As interações sociais e ambientais são importantíssimas para o seu desenvolvimento equilibrado e para uma vida saudável. Deste modo, e de acordo com a espécie, a idade, o estado saúde, o local onde reside ou para onde vai viajar, as condições climatéricas de momento e os estilos de vida, o aconselhamento individualizado dos programas/produtos por um médico veterinário faz cada vez mais sentido”, acrescenta.

Os parasitas externos mais comuns incluem as pulgas (Ctenocephalides spp.), carraças (Rhipicephalus sanguineus, Ixodes spp.), mosquitos, ácaros (Otodectes cynotis, Sarcoptes Scabiei, Notoedres cati.) e piolhos.”

Patrícia Soares, médica veterinária do Hospital Referência Veterinária Montenegro (HRVM) diz-nos que os parasitas mais comuns são, na sua maioria, transversais aos cães e aos gatos. “Os parasitas externos mais comuns incluem as pulgas (Ctenocephalides spp.), carraças (Rhipicephalus sanguineus, Ixodes spp.), mosquitos, ácaros (Otodectes cynotis, Sarcoptes Scabiei, Notoedres cati.) e piolhos. No cão temos também os flebótomos, pequenos insetos transmissores de Leishmania, doença grave nesta espécie que tem vindo a ser cada vez mais diagnosticada.

Relativamente aos parasitas internos, encontramos mais frequentemente os céstodes (Dipylidium caninum, Taenia spp. e o Echinococcus spp.), os nemátodes (Ancylostoma caninum, Toxocara canis, Toxascaris leonina, Trichuris vulpis, Crenosoma vulpis, Angiostrongylus vasorum – tropismo para o pulmão, mais frequente no cão; Aelurostrongylus abstrusus – tropismo cardiopulmonar mais frequente no gato; Thelazia callipaeda e Dirofilaria immitis – tropismo para o coração), as coccídias e a giardia. Além de existirem diferentes tipos de parasitas é importante relembrar que muitos dos parasitas externos são vetores de parasitas internos e o seu controlo deve ser feito em simultâneo”, explica a médica veterinária.

Os cuidados hoje são melhores havendo maior probabilidade de tratamento curativo para os parasitas detetados precocemente. “Noutros podemos ter apenas um controlo da doença com remissão dos sintomas e com vigilância para toda a vida (como é o caso da leishmaniose). Atualmente, a grande maioria das parasitoses apresentam-se à consulta com sintomatologia incipiente, o que permite tratamento em ambulatório (recurso, entre outros, a fármacos, dietas e a desparasitantes bastante seguros e eficazes). No entanto ainda há casos em que é preciso internamento e abordagens terapêuticas mais complexas (dirofilariose, casos de leishmaniose, coccidiose, entre outros)”, explica Isabel Maia.

“A profilaxia continua a ser a melhor arma, através do recurso a medicamentos antiparasitários adequados à situação que se quer prevenir, tendo em consideração o ambiente em que vive cada animal e o grau de exposição às diversas parasitoses”, acrescenta Rita Simões, médica veterinária da Clínica Veterinária Clinicão, pertencente ao OneVet Group. As formas mais adequadas de prevenção e de tratamento devem ser sempre avaliadas caso a caso, pelo médico veterinário.

Maior consciencialização?

Isabel Maia não tem dúvidas: os tutores hoje tomam uma de duas posições: ou confiam plenamente no que está no mercado há algum tempo, usando-o quase indiscriminadamente sem questionar, ou pelo contrário sentem-se confusos com tantos produtos e tendem a reunir toda a informação no sentido de uma melhor tomada de posição, sendo esta última a atitude que mais ajuda na prossecução do papel dos médicos veterinários.

“Com todo o ruído que a informação disponível possa trazer é talvez aqui que voltamos a entrar como aqueles que mais esclarecidamente podem aconselhar. Somos nós que podemos dizer, por exemplo, que num determinado cão, que não sai da região de Viseu, não fará muito sentido usar sempre um desparasitante interno à base de milbemicina oxima, mas não deverá descurar uma desparasitação externa contra flébotomos; ou no caso de outro cão, com menos de quatro semanas, também não fará sentido iniciar a desparasitação interna com produtos contra céstodes”, salienta Isabel Maia.

No HVV tem sido desenvolvida uma grande aposta no sentido de informar e sensibilizar o tutor. Desde cartazes alusivos ao tema, partilhados nas redes sociais, no site e afixados nas receções do Grupo, até à realização de um mês dedicado ao tema para chamar à atenção para uma desparasitação cada vez mais individualizada e com produtos alternativos. “Este ano vamos realizar um workshop com o tema ‘Segredos para uma boa desparasitação’ e fazemos questão de continuar a alertar para as melhores e mais atualizadas práticas neste setor”, explica.

O HRVM aposta na informação sobre os benefícios da desparasitação ao longo de todo o ano. “Alguns tutores são mais difíceis e menos cumpridores e por isso tentamos estabelecer alguns métodos alternativos para relembrar e reforçar a importância da desparasitação. Em certos casos estabelecemos calendários sistemáticos de desparasitação adaptados a cada animal, e noutros recorremos ao envio de mensagens para relembrar a data da desparasitação”, conta Patrícia Soares.

Além disso, o hospital aposta na formação e educação de crianças com o projeto “Ação Escolas” em que um membro da equipa se desloca a diferentes estabelecimentos de ensino e, de forma simples, tenta sensibilizar as crianças para os principais cuidados a ter com o animal (incluindo a desparasitação). “De uma forma em geral aconselhamos os tutores a virem ao nosso hospital, a controlar o peso do animal, a ter o aconselhamento adequado para a seleção dos produtos mais adequados e, sendo uma visita mais rápida e sem grande manipulação do animal, ajuda a criar laços mais estreitos entre o veterinário, o animal e o seu tutor”, assinala a médica veterinária.

As formulações orais com boa palatibilidade têm tido uma ótima aceitação por parte dos tutores e respetivos animais. As novas coleiras de ação prolongada sem cheiro ativo também têm sido grandes aliados na prevenção da leishmania.”

O grande desafio para a classe passa por fazer entender aos tutores dos animais que nem sempre é imperativo que o animal apresente sinais clínicos ou parasitas visíveis, sendo por isso muito importante a aposta na prevenção de forma ativa. “Alguns tutores ainda vêm à consulta para desparasitar apenas quando o animal já apresenta sinais clínicos associados. Noutros casos apenas realizam a desparasitação aquando das vacinas por indicação do veterinário da consulta. Isto pode ser problemático tendo em conta que algumas marcas de vacinas apresentam intervalos de reforço vacinal superiores a um ano. Claro que a crescente publicidade divulgada por algumas marcas de desparasitantes tem vindo a ajudar e a colmatar estas falhas”, salienta Patrícia Soares.

É também um facto que existe uma grande variedade de parasitas externos e internos que podem afetar os animais de companhia, e nem sempre é fácil para os tutores perceberem quais os diferentes tipos de profilaxia e tratamentos que têm de fazer para proteger
o seu animal. “Este aconselhamento deve sempre ser feito junto do médico
veterinário, de forma a adaptar as melhores formas de prevenção das
diferentes doenças parasitárias à realidade de cada animal”, afirma Rita Simões.

Acesso aos fármacos

Portugal tem ao dispor as melhores armas terapêuticas? Com fácil acesso? E como tem sido o papel da indústria a este nível? “Felizmente, Portugal tem acesso rápido ao que vai sendo lançado para o mercado e os nossos veterinários estão cada vez mais atentos às novidades. Nos últimos anos têm-nos chegado novos fármacos, cada vez mais seguros (conceito de bioativação), completos (contra ecto e endoparasitas em simultâneo, quer em comprimidos, quer em spot on) e com apresentações cada vez mais interessantes (comprimidos muito palatáveis, ou spot on com largo espetro de ação muito úteis, por exemplo, para aqueles casos de difícil administração oral). Sinto apenas que da parte dos laboratórios vem um fraco reconhecimento do nosso trabalho na implementação de novos produtos)”, defende Isabel Maia.

A médica veterinária sente que a classe é quem “dá a cara pelos produtos” ao disponibilizá-los para aplicar e resolver eventuais reações adversas. “O que é frequente acontecer é que depois desse investimento, em particular no tempo de formação, passamos a ser ‘dispensáveis’ (até ao próximo produto…). Penso não ser assim tão difícil sermos mais ‘respeitados’ e devidamente reconhecido o nosso esforço”, afirma.

Como sugestões práticas para a indústria farmacêutica, além de mais suporte formativo, dinâmicas e artigos de merchandising atrativos para os clientes, Isabel Maia sugere que lhes seja atribuído, pelo menos, o mesmo desconto que é feito a cadeias de hipermercados e redes de petshop, independentemente do número de produtos que encomendem. “Esse desconto deveria até ser maior”, sugere. “Ninguém perderia e não nos sentiríamos ‘atraiçoados’, correndo até o risco de sermos mal vistos pelo cliente que pode não entender diferenças de preços num mesmo produto, por vezes bastante significativas, apenas e só porque os compramos mais caros”, sublinha.

Para Isabel Maia, o papel dos investigadores, dos legisladores e das autoridades fiscalizadoras é crucial no que respeita ao papel mais ativo na prevenção de uso massivo e indiscriminado destes produtos. “Por outro lado, é preciso que os médicos veterinários se alinhem em estratégias conjuntas que envolvam os intervenientes acima referidos, armazenistas e laboratórios de modo a atuarem em uníssono e sentirem-se confortáveis, por exemplo, na partilha das suas experiências, desde casuística clínica, reações adversas registadas, até ao benchmarking. Só assim penso ser possível obter uma constante atualização das realidades endémicas de cada zona do país, bem como um maior respeito e porventura maior rigor na adequada, justa aquisição e uso destes e outros fármacos”, defende.

É que os tutores têm cada vez mais dúvidas sobre os novos produtos e as respetivas formas de ação sobre a frequência e o motivo de se manter um protocolo tão sistemático sem evidência de parasitoses no animal. “As pessoas têm cada vez mais dúvidas relativamente ao tipo de desparasitação mais adequada quando vão viajar ou de férias para outras áreas geográficas. Creio que a divulgação de diferentes produtos, a marcação de consultas regulares de controlo, em que, muitas vezes, apenas se verifica o exame clínico do animal, a evolução do peso e a verificação do estado parasitário poderiam ajudar”, reforça Patrícia Soares.

No que respeita aos produtos que os médicos veterinários dispõem em concreto para sugerir aos tutores, a médica veterinária considera que “as formulações orais com boa palatibilidade têm tido uma ótima aceitação por parte dos tutores e respetivos animais. As novas coleiras de ação prolongada sem cheiro ativo também têm sido grandes aliados na prevenção da leishmania. Por outro lado, os tutores de gatos têm apreciado a formulações spot-on que permitem a desparasitação interna e externa na mesma aplicação”.

Vendas paralelas de antiparasitários

A disponibilização de produtos antiparasitários via internet, em superfícies comerciais ou mesmo em farmácias é uma preocupação acrescida para os médicos veterinários. “Penso que o caminho não passa por proibições de vendas, mas por criar sinergias com alguns desses locais. Refiro-me em concreto às farmácias. Há espaço para todos os que sejam devidamente formados na área. Outro caminho é a aposta na informação ao cliente de que somos nós, médicos veterinários, os técnicos mais habilitados a prescrever, explicar, administrar ou aplicar os produtos mais adequados para aquele animal em particular”, salienta a diretora do HVV.

Há que tentar consciencializar os tutores para o facto de que todos os produtos medicamentosos que administram aos seus animais devem ser devidamente aconselhados e prescritos pelo médico veterinário.”

A competitividade comercial acaba por ser inevitável também neste setor. Patrícia Soares discorda com a venda crescente de desparasitantes nas farmácias por duas razões. “A primeira é que a classe veterinária é formada e especializada para informar devidamente os tutores a fazer as escolhas mais acertadas para o animal tendo em conta o seu histórico clínico, caráter e área geográfica. Como pode um farmacêutico vender um produto de forma correta, sem indicação do médico veterinário, sem saber se o animal tem alguma patologia que o impeça de tomar determinada formulação (ex: hepatopatia, epilepsia…)? Ou sem saber, por exemplo, que um animal, por ter dermatite alérgica à picada de pulga necessita de um produto de ação mais rápida? A segunda razão é que a classe precisa de ser valorizada no nosso país. O facto de um tutor ter de se deslocar a uma clínica para ser aconselhado por um médico veterinário e comprar um produto de venda exclusiva veterinária permite valorizar o nosso serviço e, na maioria dos casos, leva a que o tutor reconheça o valor do nosso trabalho”, defende. E sublinha: “os farmacêuticos não têm formação específica para medicar os nossos animais. A classe médico-veterinária deve apostar em não perder este mercado para garantir uma maior valorização profissional e económica do setor”.

A forma de evitar a procura de produtos em farmácias, petshops e serviços online sem o devido aconselhamento médico para a escolha do produto mais adequado passa por estreitar relações com os tutores para que estes recorram aos serviços médico-veterinários e entendam que “uma ajuda especializada garante uma escolha assertiva do melhor produto para o animal e, por conseguinte, melhores resultados”, sublinha a médica do HRVM.

Relativamente ao mercado de venda de medicamentos veterinários pela internet sem qualquer supervisão “é perigoso e pode pôr em risco a vida dos animais. Há que tentar consciencializar os tutores para o facto de que todos os produtos medicamentosos que administram aos seus animais devem ser devidamente aconselhados e prescritos pelo médico veterinário”, recomenda Rita Simões. É que a facilidade de aquisição de produtos antiparasitários pelas mais diversas vias também tem aumentado “os casos de intoxicações, aplicações insuficientes/inadequadas, falhas nos protocolos mais adequados, etc.”, alerta Isabel Maia.