Congresso Montenegro

Evento desmistifica complexidade da Neurologia

Congresso Montenegro: evento desmistifica complexidade da Neurologia

Foi há 12 anos que o Congresso Montenegro escolheu a Neurologia como tema principal. A especialidade evoluiu, novos métodos surgiram, mas a complexidade da mesma ainda é um mistério para alguns médicos veterinários, razões pelas quais o tema regressa na edição deste ano. Há ainda várias salas a funcionar em simultâneo, com destaque para a sala de gestão, de comportamento e até de exóticos.

O Europarque, em Santa Maria da Feira, volta a ser o local escolhido para a realização do Congresso do Hospital Veterinário Montenegro (HRVM). Naquela que é a sua XIV edição, a realizar-se nos dias 24 e 25 de fevereiro, o tema em debate será “Neurologia sem segredos”. Em simultâneo irá decorrer a VIII edição do Congresso de Enfermagem Veterinário.

Não é a primeira vez que o HRVM dedica o seu Congresso à neurologia. Há 12 anos, a neurologia também esteve em destaque, na Fundação Cupertino Miranda. Aliás, alguns oradores que marcaram presença na altura também estarão presentes deste ano. É o caso de João Ribeiro, diretor clínico da Referência Veterinária e docente da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, que aceitou o convite da VETERINÁRIA ATUAL para fazer uma retrospetiva do que mudou.

O principal desafio da Neurologia em Portugal e no resto do mundo é, na opinião de João Ribeiro, a formação. “É uma disciplina com uma curva de aprendizagem longa, onde os erros têm, muitas vezes, consequências irreversíveis para os animais. A maior disponibilidade de equipamentos de diagnóstico e tratamento ajudam, mas para que efetivamente sejam uma mais-valia para os pacientes, e se justifique o ainda elevado custo que acarretam aos seus tutores, precisam de profissionais com preparação elevada”, defende.

Luís Montenegro denota que, há 12 anos, a capacidade de diagnóstico por imagem de ponta (TAC, Ressonância Magnética) era “quase um sonho” e o trabalho dos veterinários baseava-se mais na radiologia convencional. “Com a evolução e o desenvolvimento dos meios tecnológicos de imagem já somos capazes de fazer o nosso diagnóstico da melhor forma. A neurologia sofreu, nestes 12 anos, avanços incríveis. Sendo que a imagem nos dá um diagnóstico com precisão, a cirurgia neurológica avançou muito, e esta foi uma das razões que nos levou a ter mais curiosidade sobre o tema”, diz-nos.

João Ribeiro irá ter a seu cargo algumas palestras. “A minha proposta é de uma abordagem prática, com casos clínicos reais de doenças inflamatórias do Sistema Nervoso Central e neuropatias cranianas. Tenho também uma participação no Congresso de Enfermagem com o tema das alterações intracranianas, onde tentarei desmistificar alguns dos conceitos mais relevantes nesta matéria, e na Sala de Bombeiros e Socorristas, para sensibilizar quem não está ligado à nossa profissão de como se podem manifestar alterações neurológicas em cães e gatos”, explica.

Desmistificar uma especialidade complexa

Ângela Martins, diretora clínica do Hospital Veterinário da Arrábida e do Centro de Reabilitação Animal da Arrábida (HVA / CRAA) estará juntamente com alguns elementos da sua equipa a realizar dois tipos de palestra. “Na sala ampla, a temática incidirá sobre os segredos da excitabilidade do Sistema Nervoso Central após lesão no sentido da reorganização neural. Tendo já presente algumas regras próprias da neuroreabilitação funcional, essenciais para atingir o sucesso clínico, em primeiro lugar temos como objetivo obter a explicação prática do mecanismo da neuroanatomia e da neurofisiologia no entendimento do funcionamento do Sistema Nervoso. Esta explicação é primordial pois a neuroreabilitação funcional pertence à neurologia restaurativa que pretende uma regressão na progressão neurológica após lesão, tendo como linha condutora a obtenção de um estado ambulatório funcional”, explica a médica veterinária.

Em seguida, Ângela Martins e a sua equipa colocarão em exposição “todas as dúvidas da neurociência relativamente a como atingir o sucesso da neuroreabilitação funcional e quais as possíveis respostas para as mesmas, como por exemplo: porque é que os programas de reabilitação funcional são planificados desta forma? O que se espera obter como défices neurológicos residuais? E quanto tempo será previsto para obter a funcionalidade?”.

A escolha da especialidade de Neurologia como tema de destaque neste Congresso é do agrado da médica veterinária. “A neurologia ainda é considerada, por alguns estudantes universitários, uma área complexa, misteriosa e com um comportamento fantasmagórico, embora seja essencial e vital possuir um certo conhecimento de base. Considero este congresso muito importante para os colegas jovens, mas também para aqueles com mais anos de experiencia, pois permite uma reciclagem e atualização das novas tendências de abordagem médica. Na minha área de neuroreabilitação funcional, permite facilitar aos colegas portugueses o que podem fazer na sua prática clínica, demonstrando que vale a pena. Além disso permitirá a formação aos colegas, tornando possível a passagem do conhecimento que tem sido alvo de formação a nível internacional no setor privado e universitário pela equipa do HVA/CRAA. Não faz sentido passar o testemunho só a nível internacional. É muito importante poder ajudar a fortificar a medicina veterinária nacional”, afirma.

Não é a primeira vez que Gonçalo da Graça Pereira é convidado como orador deste Congresso. Juntamente com a colega Isabel Santos será responsável pela Sala de Comportamento. “O que pretendemos é fazer uma abordagem ao comportamento animal, pensando quais os caminhos que os médicos veterinários generalistas podem seguir de forma a prevenir problemas de comportamento. A grade aposta é pensarmos em como prevenir, logo desde as consultas de pediatria, e trabalharmos em conjunto, ou seja, termos uma mensagem única para que possamos, cada vez mais, falar um por todos e todos por um”, explica o fundador do Centro para o Conhecimento Animal (CPCA) e médico veterinário especialista europeu em Medicina Comportamental e diplomado em Bem-Estar, Ética e Lei.

No Congresso de Medicina, o orador terá à sua responsabilidade a apresentação: “Estratégias para melhorar a cognição: conseguiremos parar o envelhecimento?”, onde irá abordar todo o processo de envelhecimento cerebral dos cães e dos gatos, mostrar como pode ser prevenido e como é possível “aumentar a plasticidade cerebral porque é muito importante manter esses animais ocupados, dar-lhes algumas ferramentas e também alguns suplementos e fármacos que podem ser usados em casos de disfunção cognitiva”, explica.

Gonçalo da Graça Pereira deixa um convite aos colegas que ainda não tenham decidido participar no evento: “Os temas que vão estar em discussão são da ordem do dia e são necessários a todos, pelo que acho que os colegas devem participar em grande escala e aproveitar esta oportunidade única. Este congresso já é um marco nacional, e para mim é um grande orgulho cada vez que recebo um convite por parte do Luís Montenegro para participar como orador”.

Salas temáticas

Este é um Congresso monotemático, onde anualmente se tentam desvendar os segredos de determinada patologia. Além das conferências gerais vão decorrer ações paralelas em salas específicas realizando-se também diferentes workshops.

A Sala de Gestão está de volta. “Sem colaboradores motivados não há números que resistam. Para isso juntámos uma equipa de palestrantes diversificada, entre dois médicos veterinários dedicados à área da gestão: o Pere Mercader e eu, além de Agostinho Costa, especialista em controlo de gestão, e um orador dedicado aos recursos humanos, José Dantas. Assim, conciliamos a prática quotidiana com a investigação e o ensino universitário, trazendo ideias de grandes empresas para as nossas estruturas”, explica Ricardo Almeida, gestor e diretor clínico da Vet Povoa.

Luís Montenegro destaca a presença de Pere Mercader. “É muito positivo trazer um orador de gestão do mundo hispânico que conhece melhor a nossa realidade, filosofia e o nosso mercado. Confirmou a sua presença há pouco tempo e sentimo-nos muito lisonjeados por ter aceite pois achamos que vai enriquecer a Sala de Gestão”, defende.

Ricardo Almeida acrescenta que este Congresso “tem a capacidade de se reinventar a cada ano. O que começou com uma sala cheia de veterinários clínicos passou a ser um conjunto de nove salas, complementadas com concursos e uma causa solidária”.

A Sala de Exóticos vai realizar-se no primeiro dia do Congresso e responde a um cada vez maior interesse pela área. “É um grande avanço e a organização deste evento está de parabéns! Pela primeira vez vamos ter um espaço exclusivo para os exóticos, com um programa destinado a colegas que fazem clínica destas espécies. Não me parece que os temas sejam demasiado avançados, mas também não incidirão só em generalidades e conhecimentos básicos. Tenho a certeza que serão palestras que trarão algo de novo e útil para a prática clínica, para o dia-a-dia de quem trata destes novos animais de companhia, que se vão afirmando cada vez mais como parte da família”, foca Joel Ferraz, médico veterinário do Centro Veterinário de Exóticos do Porto.

Um dos oradores internacionais que marcará presença no Congresso e nesta sala de Animais Exóticos é o médico veterinário italiano Alessandro Melillo. A seu cargo vão estar algumas palestras que respondem “à crescente realidade do mercado veterinário. Com o crescimento de exóticos, o conhecimento é cada vez mais necessário entre os médicos”. As suas palestras incidirão sobre as aves, “incríveis criaturas capazes de viver nas nossas famílias durante muitos e muitos anos”, explicou. “O que pode correr mal em cirurgia de tecidos moles e em cirurgia ortopédica em aves e porquê?” vão ser duas das palestras do orador, que irá apresentar  também “alguns casos clínicos, mostrando a abordagem terapêutica adequada e respondendo às perguntas dos colegas”, diz-nos.

Outro orador internacional convidado é Holger Volk, professor do Royal Veterinary College, que confessou à VETERINÁRIA ATUAL estar muito expectante pela realização do Congresso. “A organização teve um grande cuidado de reunir um programa fantástico enraizado nas noções básicas da especialidade, mas ao mesmo tempo fornecendo os novos destaques na neurologia veterinária”.  Tal como noutras especialidades, a neurologia enfrenta alguns desafios. “São necessárias mais pesquisas que nos forneçam diretrizes baseadas em evidências clínicas para um melhor tratamento de patologias. Além disso, necessitamos de expandir o nosso portefólio com mais alternativas, para além da farmacologia e da cirurgia. Sinto-me entusiasmado em explorar a relação entre o intestino e o cérebro, algo que considero absolutamente fascinante”, afirma. O orador trará ao Congresso algumas novidades relativamente à gestão da epilepsia canina. “Esta doença é muito mais do que um transtorno com crises e a gestão da patologia é muito mais do que fármacos”, defende.

Uma das salas que mais evolução tem tido ao longo das várias edições é a Sala Avançada. “O orador, através de uma apresentação mais tecnológica, acaba por ter a perceção de como a plateia está a acompanhar a sua palestra e dirige mais o seu discurso para temas que tenham maior ou menor interesse ou que suscitem maiores dúvidas. Através do programa vai tendo a perceção da adesão dos participantes. Esta sala vai de encontro à nova forma de dar formação e das novas recomendações de lecionar e de passar informação. Tanto para o orador, como para a plateia, esta sala é muito mais divertida”, salienta Luís Montenegro.

Congresso de Enfermagem

Mais uma vez, e em simultâneo ao Congresso de Medicina, decorrerá o Congresso de Enfermagem. Naquela que é a 8ª edição, Helena Vala considera que o tema da neurologia é um desafio clínico diário para a equipa de Saúde Animal, onde se destaca o papel do enfermeiro veterinário. “A excelente organização daquele que considero um dos melhores eventos científicos nas ciências veterinárias da Europa habituou-nos a uma qualidade equivalente nas duas salas, que nos permite reciclar e aprofundar conhecimentos de boa prática clínica em ambas as salas, assente no respeito das competências respetivas de âmbito profissional. Por isso antecipo uma sala dinâmica, interativa, com bons exemplos de práticas de enfermagem veterinária e de boa interação em toda a equipa de saúde animal, quando confrontada com uma situação do foro oncológico”, professora coordenadora da Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viseu.

Além do “excelente programa científico”, Helena Vala destaca a oportunidade “de reencontro, a Norte do país, um espaço de convívio e de grande riqueza, em termos de programa social”. Alguns oradores convidados terão palestras em ambos os Congressos, de Medicina e de Enfermagem. É o caso de Ângela Martins, que terá como tema específico para os enfermeiros veterinários o ensino na prática de como se podem obter “as regras próprias da neuroreabilitação funcional, essenciais para atingir o sucesso clínico. Demonstrar que a neuroreabilitação funcional deve ser explicada como uma abordagem multidisciplinar, tendo como base, um triângulo constante de introdução do treino locomotor, associado à modalidade de eletroestimulação, com apoio ou não do maneio farmacológico. De seguida, iremos explicar qual o apoio farmacológico, quando deve ser aplicado e qual o seu logaritmo de administração, tendo sempre por base, estudos científicos baseados na prática e na evidência clínica”.

É a grande novidade deste ano. Com capacidade para 100 pessoas, esta sala destina-se a bombeiros, socorristas e público em geral, com especial interesse em aprender como lidar com situações de emergência e socorro em animais de companhia e selvagens. A participação será gratuita para bombeiros com acreditação profissional em dia, e para os restantes interessados terá um valor de inscrição de 95 euros.

Joana Moreira, médica veterinária na Campifarma, é responsável por esta sala e diz-nos que a mesma consistirá numa “formação de primeiros socorros a animais, onde se pretendem transmitir conhecimentos sobre como atuar numa primeira abordagem e esclarecer dúvidas sobre situações de emergência. A sala é uma das novidades deste ano e surgiu no seguimento de alguns contactos por parte de bombeiros para o hospital em situações envolvendo animais, no sentido de tentarmos ajudá-los no terreno. Percebemos que existe um grande interesse por parte destes profissionais nesta área”.

Esta é uma sala que pretende trazer inovação ao Congresso, e em simultâneo envolver público não veterinário, mas com interesse no tema, apostando na partilha de conhecimentos e diferentes experiências.

“O programa desta sala está bastante abrangente e conta com um leque de oradores experientes e com muito conhecimento para partilhar. Será uma formação interessante com mais-valias no dia-a-dia de bombeiros e socorristas. Gostaria de convidar todos os interessados em primeiros socorros a animais a consultar o programa e métodos de inscrição no site www.congressohvm.com”, afirma Joana Moreira.

Luís Montenegro não esconde o entusiasmo por esta novidade. “Os bombeiros já estão sensibilizados, de alguma forma, para socorrer os animais, mas falta-lhes alguma formação, até para que os mesmos cheguem em condições de poderem ser tratados por nós, médicos veterinários. Espero ver esta sala cheia de bombeiros e que desta ação saiam pessoas mais formadas para poder socorrer melhor os nossos animais. Sinto grande orgulho nesta iniciativa”, partilha.

No final do Congresso, o objetivo será o de oferecer “20% do valor total das inscrições para comprar equipamento de segurança para as corporações que a Associação Nacional de Bombeiros indique serem necessárias”. Está encontrada a causa solidária da edição deste ano.

 

Ronaldo Casimiro da Costa, professor da Universidade Estadual de Ohio, é um dos oradores internacionais a marcar presença neste Congresso. Luís Montenegro explica a escolha. “Este médico veterinário brasileiro é líder de opinião nos EUA. Alguns membros da nossa equipa já estiveram com ele nos seus locais de trabalho e o facto de ser brasileiro e de apresentar as palestras em português vai ser uma mais-valia”. Tentámos perceber quais as expectativas do orador relativamente a este evento.

Na sua opinião, qual a importância do tema escolhido para a edição deste ano “Neurologia sem segredos” e a relevância do Congresso para o setor?

O objetivo do tema é tentar desmistificar um pouco a neurologia. Existe um grande dogma em relação à complexidade da mesma. Esta é uma especialidade como todas as outras, e desde que a abordagem seja feita de forma sistemática, simplificada e sem segredos, podemos atingir excelentes resultados.

Ronaldo Casimiro - Veterinária Atual

Em relação a relevância, devido ao estigma em relação a Neurologia, um congresso voltado especificamente a esse tema é extremamente importante. A minha impressão, fundamentada em mais de duas décadas como professor, é que praticamente todos médicos veterinários de todo o mundo têm uma certa dificuldade com casos neurológicos. Espero que eu e os outros palestrantes possamos ajudar os colegas portugueses a se sentirem um pouco mais confortáveis na abordagem de casos com problemas neurológicos.

Que expectativas tem relativamente ao evento?

A minha expectativa é a melhor possível. Sei que os outros congressos foram muito bem recebidos pelos participantes, e a organização espera milhares de participantes para a edição de 2018. Espero contribuir da melhor forma possível para abrilhantar o evento e aproveito a oportunidade para mais uma vez agradecer a organização pela gentileza do convite.