Animais exóticos

Atenção ao pormenor

Os animais exóticos têm exigências diferentes e os pormenores que não podem ser descurados. Por ser uma área particularmente trabalhosa e minuciosa, será que provoca alguns receios aos ainda estudantes? Estarão as universidades e faculdades preparadas para dar resposta a quem se interessa por animais exóticos? E do lado dos médicos destas espécies, como avaliam a evolução da última década?

É sobretudo o desconhecido que assusta Laura Melo, estudante do quarto ano de mestrado integrado de Medicina Veterinária na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT), que já frequentou o ensino superior, em Inglaterra, antes de ingressar neste curso. Considera que seria necessário um maior conhecimento sobre animais exóticos e animais selvagens nos cursos universitários. “Infelizmente, na faculdade que frequento, temos muito pouco contacto físico com esses animais e a nossa formação baseia-se mais na parte teórica”, conta.  Com 26 anos, já tem o futuro bem delineado, ou pelo menos, já definiu as suas ambições quando terminar os estudos: a investigação não a entusiasma para já, mas gostaria de trabalhar um pouco por todo o mundo. “Acho bastante relevante ter mais conhecimentos sobre outras espécies que não só o cão, gato, pequenos e grandes ruminantes domésticos, e equinos, que constituem o foco principal do nosso curso”, diz.

Francisca Gerald

Considera que os exóticos são, por si só, “um desafio” e reforça que não lhes é dada a devida importância no ensino superior. “Acho que a partir do mestrado, deveria ser dada a oportunidade de se escolher e poder enveredar pelas áreas que mais nos interessam. Isto é, quem tivesse interesse em ruminantes/equinos, faria o segundo ciclo com unidades curriculares mais baseadas na área, quem preferisse pequenos animais (cães, gatos), idem, e quem preferisse animais exóticos/selvagens teria mais unidades curriculares dedicadas a tal, complementando sempre com disciplinas gerais em comum. Quem quisesse explorar um pouco de tudo, teria também oportunidade de escolher as unidades curriculares que fossem de acordo ao seu interesse profissional e pessoal”, defende.

“O maior desafio nestes animais é a complexidade dos seus organismos, bem como as diferenças que estes apresentam de espécie para espécie”, defende a estudante de Medicina Veterinária, Francisca Gerald

Francisca Gerald, de 24 anos, a frequentar o quinto ano do curso de Medicina Veterinária na mesma faculdade, considera que a área de exóticos vai fazendo cada vez mais parte dos currículos de mais disciplinas. O que a assusta é a falta de estudos e informação científica acerca dos mesmos, opinião partilhada por Laura Melo: “O maior desafio nestes animais é a complexidade dos seus organismos, bem como as diferenças que estes apresentam de espécie para espécie”, explica Francisca.

O que assusta mais os alunos?
O médico veterinário Joel Ferraz considera que a maior dificuldade demonstrada pelos estudantes de Medicina Veterinária é a contenção. “Existe muito medo de se ser mordido ou arranhado por um papagaio, por uma rapina, por uma serpente… mas também muito receio de magoar o paciente, ou até mesmo de matá-lo, por uma contenção inadequada. Surgem também outras questões, no diagnóstico e nos procedimentos clínicos, mas mais lá para a frente”, salienta.

Denotando um cada vez maior interesse por parte dos alunos, sobretudo de há dez anos para cá, não vislumbra um novo rumo para o ensino de Medicina Veterinária de exóticos nas faculdades. “Têm surgido algumas iniciativas, numa ou noutra cadeira”, destaca. Por outro lado, tem assistido ao “maior interesse e sensibilidade por parte dos donos para tratar os animais exóticos”.

Rui Patrício em consulta

O médico veterinário Rui Patrício também destaca este receio de errar, sobretudo por parte dos alunos que não gostam destas espécies. “Outros têm medo, principalmente dos répteis ou mesmo de aves, e nem sequer pensam em aproximar-se. Os que gostam, por vezes, têm uma visão um pouco ‘romanceada’ da medicina de exóticos, que por tratar de animais mais pequenos e aparentemente mais frágeis, descuram a contenção destes animais e podem surgir alguns acidentes”, foca o também professor da ULHT e da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa (FMV-ULisboa).

O desafio principal é partilhado com os seus alunos: “Não devem olhar para os animais exóticos como cães ou gatos pequenos. Não são, de todo. Por essa razão, os meios de diagnóstico e os tratamentos podem ser parecidos, mas a forma de interpretar e de fazer são, muitas vezes, diferentes”. É preciso não ter medo, “saber manipulá-los corretamente e, se realmente estão interessados, mesmo que seja nos ‘mínimos olímpicos’, há que apostar na formação e estudo. São animais como os outros… Todos são diferentes. Se houver vontade de aprender, não é difícil”, deixa como conselho aos futuros médicos veterinários.

O médico veterinário Joel Ferraz gostaria de assistir, no futuro, a clínicas dedicadas a cada grupo de animais. “Assim, em vez de Clínica de Exóticos, teríamos Clínica de Aves, Clínica de Répteis, Clínica de Pequenos Mamíferos, etc”, afirma.

Considerando que tem havido evolução na formação universitária, Rui Patrício tem assistido a “muitos alunos interessados” e adianta que, se há 20 anos, a medicina de exóticos era “um nicho de mercado”, atualmente já não o é. “Claro que não haverá tantos clínicos de animais exóticos como de pequenos animais (também não será necessário), mas provavelmente também haverá mais do que colegas só a fazer endoscopia.” A título de exemplo, na ULHT, são várias as disciplinas em que há, pelo menos, uma aula referente a exóticos, como por exemplo, Exognósia, Nutrição, Comportamento, Farmacologia, Patologia Cirúrgica, Reprodução, Imagiologia, Oftalmologia, Clínica de Animais de Companhia e Equídeos, e Atividades Hospitalares. “Além destas, que vão desde o primeiro ao quinto ano, pode haver a opcional de Clínica e Cirurgia de Animais Exóticos, Silvestres e de Zoo, que dura um semestre, caso haja alunos suficientes inscritos.” O médico colabora ainda com a Universidade de Lisboa, onde existe uma opcional durante a semana.

Cristina Almeida, médica veterinária e diretora clínica da Exoclinic, em Algés, considera que a formação nesta área depende muito do esforço individual. “Penso que todos os colegas que se dedicam a esta área estudam muito, são muito dedicados e a nossa proximidade a estas espécies vem também com o tempo.”

Joel Ferraz

Desafios para os generalistas
Joel Ferraz aponta os procedimentos clínicos como principais desafios para médicos veterinários generalistas. “Claro que no diagnóstico também encontram dificuldades, tal como nós [médicos veterinários dedicados à área de exóticos]. Mas, se houver interesse, podem dedicar uma hora de estudo, um dia, ou mais, e talvez se resolva o problema. Mas nos procedimentos clínicos (e na contenção), na cirurgia e na monitorização anestésica, é preciso uma maior rotina.” Quando não se consegue resolver um caso clínico como um todo e não é possível dedicar tanto tempo de estudo ao mesmo, as exigências tornam-se maiores.
A mensagem que o médico veterinário considera mais importante transmitir a estudantes e colegas é a de que “cada paciente exótico é um mundo, da mesma forma que o gato e o cão também o são. Curiosamente, na clínica de exóticos, temos de ser ainda mais generalistas, mas nunca vamos ter tanto tempo para conhecer cada uma das espécies tão bem como gostaríamos, ou como um médico veterinário que se dedique só ao cão e ao gato, ou só a um deles”. No futuro, Ferraz gostava de vislumbrar uma prática na qual cada clínico se dedicasse a um só grupo de animais, podendo conhecê-los realmente e a fundo, para melhores resultados: “Assim, em vez de Clínica de Exóticos, teríamos Clínica de Aves, Clínica de Répteis, Clínica de Pequenos Mamíferos, etc.”

É preciso não ter medo dos animais exóticos, “saber manipulá-los corretamente e, se realmente estão interessados, mesmo que seja nos ‘mínimos olímpicos’, há que apostar na formação e estudo”, defende Rui Patrício

Rui Patrício reforça também a mensagem de que os exóticos, enquanto animais diferentes, exigem cuidados diferenciados. “Se recorremos ao colega oftalmologista, neurologista ou cardiologista quando os nossos conhecimentos são ultrapassados, devemos fazer o mesmo com a medicina de animais exóticos”, afirma. E é precisamente o trabalhar no desconhecido – referido pela estudante Laura Melo –, que, na opinião de Cristina Almeida, constitui “a parte mais engraçada de quem trabalha nesta área: o desafio técnico, ir à procura, falar com colegas de outros países, a partilha dos casos…”

A médica veterinária nota uma “evolução muito positiva dos médicos veterinários relativamente ao interesse pelos animais exóticos”. De igual modo, e também fruto deste trabalho, os tutores acabam por estar mais sensibilizados para as rotinas veterinárias.

Abrir a clínica a estudantes
Desde 2010 que a Exoclinic dispõe de programas de formação, inicialmente dedicados a auxiliares de veterinária e a enfermeiros veterinários, recebendo depois médicos veterinários como visitantes. No que respeita a estudantes, a clínica dedica-lhes dois programas: o Young Vet, com a duração de uma semana no verão, para jovens dos 10 aos 16, com o objetivo de dotá-los de aptidão, gosto e curiosidade em estar próximo desta profissão através de atividades muito ligeiras; e a Summer School, que consiste numa semana intensiva dedicada aos animais exóticos, para estudantes universitários, muito procurada por estrangeiros. “Normalmente, só acontece no verão (fazemos corresponder ao horário académico), dividimos por seminários com casos reais e práticas com modelos artificiais. Fazemos uma série de exercícios para tentar desenvolver a parte prática com acesso a casos reais e os estudantes gostam muito desta experiência”, explica Cristina Almeida.

A médica veterinária partilha que é curioso assistir à evolução dos participantes no que respeita ao “à-vontade” com que passam a lidar com estes animais. “Alguns têm receio no primeiro dia, mas, no segundo, já estão bem mais tranquilos”, conta. Na sua opinião, é importante partilhar com os alunos a relevância desta experiência, mais que não seja para constituir um fator de exclusão: “Podem até ter gostado muito, mas se calhar percebem que não será isto que querem fazer no futuro quando têm esta oportunidade de proximidade ao dia a dia. Normalmente, os alunos acham que esta área é muito difícil e trabalhosa. Ficam muito encantados pela parte da inteligência destes animais, de falarem, de terem memória e da associação de ideias: no fundo, gostam das características das aves e dos papagaios que desconheciam até então.”

Cristina Almeida partilha com os estudantes que recebe para formação na Exoclinic que esta é um bom fator de exclusão: “Podem até ter gostado muito, mas se calhar percebem que não será isto que querem fazer no futuro quando têm esta oportunidade de proximidade ao dia a dia.”

E se é verdade que os alunos estão mais habituados a espécies mais pequeninas, como caturras e periquitos, também se percebe que os répteis se situam num “mundo à parte enquanto grupo de animais que, em termos de anatomia e de doenças, está muito afastado daquilo a que chamamos aos mamíferos (animais de pelo). Ficam fascinados pela beleza e pela diversidade. É precisamente essa diversidade que causa o encantamento por esta área de animais exóticos”. No que respeita aos mamíferos, o que os alunos mais gostam é aquilo de que estão mais próximos, porque fazem um paralelismo entre o furão e a chinchila com o cão e o gato, por exemplo, o que Cristina Almeida considera “perigoso”. E justifica: “Nós trabalhamos com presas e eles trabalham com predadores, nós trabalhamos com herbívoros e eles trabalham com carnívoros, o que em termos de doença, acaba por estar muito afastado.”

Cristina Almeida

Surgem na Exoclinic doenças que não tinham denominação há três anos, e que não se diagnosticavam, mas que são atualmente prática do dia a dia. “Para um recém-licenciado, este é um enorme desafio no começo, porque obriga a estar sempre em contacto com a comunidade científica e ir à procura de respostas”, adianta a diretora clínica.

A Exoclinic tem acordos formais, como o Erasmus +, e está neste momento prestes a receber duas estudantes de enfermagem veterinária da Holanda, que ficarão até novembro deste ano. “Recebemos muitos estudantes que gostam mesmo da área, mas também outros que não têm muito contacto com a medicina de exóticos e que nos pedem para ter uma experiência enquanto componente importante da sua formação.”

Doenças mais frequentes na prática clínica

Por ordem decrescente, Joel Ferraz enuncia os problemas que mais surgem na prática clínica: “Os coelhos e roedores aparecem com patologias digestivas, incluindo as dentárias; as aves, principalmente os psitacídeos, com problemas mais diversos, salientando talvez as patologias comportamentais; e as tartarugas, com problemas nutricionais e dermatológicos.”

Rui Patrício acrescenta que as principais doenças estão quase sempre, direta e indiretamente, relacionadas com o maneio e a alimentação. “Os que mais surgem atualmente são os mamíferos, como coelhos, porcos-da-índia, furões e pequenos roedores. Nos coelhos e roedores, as patologias dentárias virão certamente em primeiro lugar, enquanto no caso dos furões, muitos problemas comuns à espécie, como insulinoma, linfoma ou doença adrenal”, explica.

Os pacientes que mais surgem na Exoclinic são os mamíferos de companhia (coelhos, chinchilas e porquinho-da-índia) com problemas dentários. “Em termos de referenciação de colegas, recebemos sobretudo casos cirúrgicos em mamíferos; em répteis, casos médicos e cirúrgicos; e em aves, todo o tipo de situações. No caso das aves, é frequente chegarem casos em ‘estado bruto’, cujo médico veterinário não fez qualquer intervenção. É de salientar, no entanto, que, por vezes, já é feita uma primeira abordagem (análises gerais, radiografia, por exemplo) e na minha opinião, muito bem feita”, defende Cristina Almeida.

 

Esperar antes de operar

A diretora clínica da Exoclinic, Cristina Almeida, considera que um médico veterinário de exóticos acaba por ter mais sucesso durante a cirurgia e no pós-operatório porque tem em consideração os pormenores e, sempre que preciso, são dados dois ou três dias de compasso de espera para operar. “Não podemos fazer cirurgias às cegas, temos mesmo de saber se não existem outros problemas, porque estes animais não têm rotina veterinária, podem até vir à consulta devido a um tumor ulcerado, mas temos de assegurar outros aspetos.”

Os donos acabam por compreender e aceitar as sugestões dadas, porque percebem que está a ser dada atenção a um todo e não a um problema isolado. “Vamos além do episódio cirúrgico. Temos de ter a capacidade de gerir o caso num todo, porque o que queremos é que o animal regresse a casa e volte a comer, a beber, fique contente e consiga regressar às suas rotinas.” Cristina Almeida costuma dar ferramentas aos tutores dizendo-lhes que o trabalho de casa é fundamental para a recuperação. “Os donos já compreendem que lhes vamos dar uma espécie de guião – que normalmente conseguem cumprir – e que a reabilitação pode demorar de semanas a meses.”

*Este texto foi publicado originalmente na edição de outubro, n.º 131, da VETERINÁRIA ATUAL.