Anestesia

“No futuro, a anestesia será como o piloto automático nos aviões”

“No futuro, a anestesia será como o piloto automático nos aviões”

A anestesia é “uma disciplina extremamente completa e complexa”, que exige conhecimentos em várias áreas da medicina veterinária. Apesar dos riscos inerentes, o certo é que presentemente “podemos estimar o risco anestésico-cirúrgico do paciente, realizando um planeamento de abordagem anestésica adequado e ajustado ao animal”.

 

A anestesia é uma das especialidades que mais evoluiu nos últimos anos em Portugal, sendo cada vez mais valorizada quer pelos tutores dos animais, quer pelos médicos veterinários.

“Esta especialidade tem particularidades muito interessantes que fazem dela uma disciplina extremamente completa e complexa”, afirma Lénio Ribeiro. Porém, o médico veterinário responsável pelos serviços de anestesia, emergências e cuidados intensivos do Centro Hospitalar Veterinário (CHV), no Porto, alerta que a anestesia será sempre um meio e não um fim (em si mesmo). “Por si só não tem um caracter curativo. Por exemplo, um cachorro tem de extrair um dente e para tal é necessário ser anestesiado, pelo que corre riscos, mas não é tolerável que venha a falecer neste procedimento”.

Como o piloto automático

A anestesia é ainda uma especialidade que abarca muitas áreas. “É necessário ter bons conhecimentos de medicina interna, pois temos de anestesiar animais com as mais variadas patologias”, corrobora Lénio Ribeiro, relembrando que “os colégios de emergências e cuidados intensivos, na sua génese, tiveram anestesistas como impulsionadores”. E, na verdade, “ainda hoje em Portugal, na medicina humana, muitos dos anestesistas também fazem cuidados intensivos”, acrescenta.

Por outro lado, a anestesia é uma especialidade cada vez mais tecnológica e com equipamentos cada vez mais complexos para a monitorização dos animais. Neste sentido “prevê-se que a anestesia no futuro será como o piloto automático nos aviões, em que o médico apenas terá como tarefas controlar e monitorizar o próprio sistema”, salienta o responsável pelos serviços de anestesia do CHV.

Daí não considerar exagerado afirmar que “a cirurgia, tanto na veterinária, como na medicina humana, só tem avançado muito porque a anestesia o permite e por isso vemos um interesse crescente nesta área nos últimos anos em Portugal”.

Anestesia ajustada a cada animal

Para se obter bons resultados o ‘segredo’ passa, de acordo com Alexandra Seixas, diretora-clínica do Hospital Veterinário EdenVet, em Fernão Ferro, “por uma avaliação minuciosa no período pré-operatório, permitindo estabilizar ou mesmo preparar adequadamente o paciente, minimizando o risco de complicações no período pós-operatório”, sendo que com a colheita minuciosa destes dados “podemos estimar o risco anestésico-cirúrgico do paciente, realizando um planeamento de abordagem anestésica adequado e ajustado ao animal”.

Neste hospital veterinário foi mesmo criado um departamento apenas para a Anestesia onde, além de se realizarem estudos de casuística existem protocolos dinâmicos que são ajustados a cada paciente, trabalhando-se no ‘just in time’. “Os animais são seres vivos individuais e com características próprias; se existem tantos fármacos no mercado com indicações e contraindicações tão diferentes e conhecendo nós, profissionais, a ótima utilização de cada fármaco porque não realizar a anestesia balanceada adequada e ajustada a cada animal?”, questiona a médica veterinária (que tem desenvolvido projetos de investigação na área da anestesiologia), acrescentando que “esta diferença no trato de cada paciente permite-nos ter excelentes resultados anestésicos e cirúrgicos”. No EdenVet está-se mesmo, nos últimos anos, “a festejar a tolerância zero à morte anestésica”.

Principais riscos

Anestesia significa falta de sensação ou sensibilidade e tem por base um processo reversível de depressão do sistema nervoso central induzido por fármacos que levam a um estado de inconsciência e a uma resposta reduzida ou ausente a estímulos dolorosos. Como é de esperar, “ao influenciarmos um conjunto de mecanismos neuro-hormonais não estamos livres de riscos em todo este processo”, alerta Lénio Ribeiro. Sendo os riscos mais comuns, de acordo com o médico veterinário, “a diminuição da pressão arterial, a ventilação insuficiente com diminuição da oxigenação sanguínea, a hipotermia (em especial em animais mais pequenos e cirurgias prolongadas), arritmias, anafilaxia e paragem cardiopulmonar”.

No EdenVet, para diminuir todos estes riscos, dentro dos protocolos criados, existe uma espinha dorsal de que não se abdica sendo comum a todos os animais que são submetidos a um plano anestésico. “Constituída por anamnese do paciente (entrevistando o seu tutor à acerca do problema clínico, podendo ser identificadas patologias anteriores, doenças atuais, fatores de risco, saber o que já lhe foi prescrito e se já houve reações adversas a algum medicamento); identificação do paciente (para determinar problemas de saúde inerentes à idade, raça e sexo); exame físico do paciente (realizado após obtenção da anamnese e histórico clínico, fazendo uso dos sentidos: visão, audição, olfato e tato para procurar indícios de patologia, este exame é realizado de forma minuciosa e correndo de forma organizada todos os sistemas) e verificamos sempre o peso corporal atual do paciente, assim como avaliamos a sua constituição corporal (indicadora de possível patologia). Todas as alterações referentes à hidratação, temperatura, coloração das mucosas e tempo de preenchimento capilar devem, igualmente, ser verificadas para se evidenciar presença possíveis patologias”, explica Alexandra Seixas.

Posteriormente são ainda prescritos exames complementares no pré-operatório sendo que, segundo a médica veterinária, “os mesmos devem ser solicitados de modo seletivo, em função do exame físico minucioso, com o propósito básico de guiar e otimizar o cuidado pré-operatório, levando em consideração as informações obtidas no prontuário do paciente, histórico clínico, exame físico, tipo e porte do procedimento cirúrgico”

Analisar o processo para evitar o erro

Por fim, “a vigilância constante e a monitorização são o preço a pagar pela segurança”, afirma Lénio Ribeiro. No entanto, “apesar de toda a monitorização utilizada continuam ainda a existir erros associados a procedimentos anestésicos”. Daí que, como alerta o médico veterinário, “é importante que as organizações veterinárias tenham atenção ao seguinte: todos os indivíduos não só erram, como erram frequentemente e de formas previsíveis e padronizadas. Qualquer sistema que não se ajuste a esta realidade pode exacerbar o erro. Os peritos do erro acreditam que é o processo, e não os indivíduos envolvidos no processo, que exigem uma análise e retificação mais profundas”.

Deste modo, olhando para a casuística do Hospital Veterinário EdenVet, Alexandra Seixas considera que “grande parte do sucesso se deve aos protocolos ajustados tanto ao nível de exigência no seu cumprimento sem saltar passos, ao detalhe das avaliações a cada animal de forma individual, à monitorização apertada durante todo o processo, ao ajuste ‘just in time’ a cada paciente e situação e a uma equipa multidisciplinar treinada para agir em cada cenário, sem necessitar de indicações superiores”. Em situações de emergência clínica “a minha equipa trabalha em silêncio, estamos protocolizados, somos conhecedores de cada ação que deve ser tomada e agimos em conformidade”, remata a diretora-clínica.

Escalas de avaliação de dor

A dor na cirurgia depende da intervenção a realizar. Ana Reisinho, médica veterinária do Hospital Escolar da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, explica que “pode variar desde moderada (castração de um macho) a muito intensa (cirurgia do canal auditivo ou ortopédica), assim como varia com a espécie em questão”. Neste sentido, os médicos veterinários possuem já escalas de avaliação da dor para cães e gatos e diretrizes de maneio da dor da Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais, que podem ajudar a adotar o protocolo mais adequado a cada situação.

Quanto aos tipos de anestesia existentes, atualmente há protocolos de anestesia fixa e volátil. “Na maioria dos casos, quando nos referimos a anestesia de cães e gatos é efetuada uma indução com um agente injetável, após a qual o paciente é entubado e mantido com um agente anestésico volátil (geralmente isoflurano, embora alguns médicos veterinários disponham também de sevoflurano)”. Ainda de acordo com a também formadora do evento ‘Anestesia para Enfermeiros Veterinários: Conceitos indispensáveis à prática clínica’, promovido pela Associação Portuguesa de Médicos Veterinários Especialistas em Animais de Companhia (APMVEAC), “o protocolo utilizado depende da espécie, grau de risco do paciente (de acordo com a classificação do Colégio Americano de Anestesiologistas – desde cirurgia eletiva, com baixo risco, até pacientes quase moribundos, que morrerão na ausência de intervenção) e da intervenção a utilizar”.

Porém, quer os anestésicos voláteis, quer os agentes de indução (propofol, alfaxolona) “não são analgésicos, pelo que os animais deverão receber previamente medicação analgésica e ansiolítica antes da indução anestésica”, alerta Ana Reisinho.

Após a anestesia, o paciente deve ser monitorizado continuamente em termos de função cardiorrespiratória. “Idealmente deverá ser utilizado um monitor anestésico com capnógrafo, monitor da pressão arterial, pulsoximetria e temperatura”, aponta a médica veterinária. “Contudo, nem todos os médicos veterinários têm acesso a estes monitores e, por isso, deve haver pelo menos uma pessoa experiente a monitorizar as frequências cardíaca e respiratória, bem como a temperatura do paciente”.

Como evitar acidentes anestésicos

De acordo com Lénio Ribeiro, para se evitarem acidentes anestésicos é importante ter em atenção os seguintes pontos:

– A avaliação pré-anestésica deve ser o mais minuciosa possível, incluindo exames médicos que forem necessários de forma a minimizar os riscos.

– Monitorização de todos os sinais vitais pelo veterinário anestesista com o auxílio da tecnologia e através de uma multiplicidade de equipamentos.

– Segurança dos sistemas através da utilização de códigos de cores, conexões próprias dos sistemas como, por exemplo, as do oxigénio são diferentes do ar comprimido, alarme de monitores e válvulas de segurança.

– Estandardização de procedimentos

– Fatores humanos: o fator individual é o que mais contribui para o sucesso ou insucesso dos procedimentos. É importante que se tenha discutido o plano cirúrgico e possíveis complicações, que os conflitos interpessoais não afetem o bom funcionamento do bloco operatório, que haja liderança dentro da sala de cirurgia.

– Declaração voluntária de eventos – todos os acidentes anestésicos devem ser registados.