Desemprego

Por Maria Teresa Morgado* 2 de Outubro - 2012

Desemprego. Esta deverá ser a palavra mais ouvida em Portugal nos últimos anos. Apesar de existirem algumas áreas mais afetadas por este flagelo que outras, todos os cursos registam um elevado número de desempregados. Medicina Veterinária não é exceção. Esta situação deve-se a diversos fatores, os quais passarei a abordar de seguida.

A principal razão para a existência de desemprego em veterinária é a formação anual de um número cada vez mais elevado de estudantes, nas diversas faculdades públicas e privadas do nosso país, seis no total. Para além deste número ser muito superior ao necessário para uma população pouco numerosa como a nossa, a quantidade de estudantes que ingressam neste curso aumenta de ano para ano. Por outro lado, devido à crise, as pessoas regem-se cada vez mais pelo princípio da precaução, tentando poupar em todos os serviços “supérfluos”, nos quais incluem muitas vezes as idas ao veterinário, e outras não possuem posses para o fazer devido ao desemprego ou reduções salariais. Assim, se a situação já não se encontrava totalmente favorável para os veterinários de animais de companhia, neste momento a situação tornou-se realmente preocupante. Mas os pequenos animais não foram os únicos que sofreram mudanças, muitos outros setores desta profissão sofreram cortes brutais. É o caso de alguns projetos de investigação que deixaram de ser financiados por falta de fundos, deixando os profissionais desta área sem concluir os seus estudos e em situações precárias.

Numa área completamente diferente, alguns veterinários de equinos falam ainda de um menor investimento neste setor, já de si é bastante suis generis, e com a crise económica algumas explorações pecuárias viram-se obrigadas a fechar portas ou diminuir efetivos. Por outro lado existe ainda a contratação de alguns profissionais de outras áreas, com remunerações mais baixas, que tentam assegurar o trabalho veterinário. Outro problema diferente, mas também grave é a existência de veterinários por conta própria que passam dificuldades com clientes devedores. Esta é uma situação muito particular com alguns problemas éticos envolvidos, mas que depende acima de tudo da decisão pessoal do veterinário de como os resolver. A agravar todo o panorama descrito até agora, existem ainda casos de colegas contratados por ordenados miseráveis, e/ou em condições de trabalho semelhantes. Não são raros os relatos de veterinários, muitos recém-licenciados, que obtiveram remunerações semelhantes ao salário mínimo nacional em recibos verdes, para desempenhar cargos de responsabilidade, em horários absurdos. Existem ainda diversos locais que recebem constantemente estagiários não remunerados, como forma de obter trabalho a custo zero. É necessário haver algum tipo de intervenção nas situações referidas anteriormente, pois estão a alcançar níveis alarmantes.

Mas todos os problemas têm duas facetas, e neste caso é necessário também referir que apesar da situação precária de emprego no nosso curso é necessário ter brio, orgulho e respeito pela profissão que representamos. Cabe-nos a nós não aceitar algumas condições que acabam por denegrir a nossa imagem, e muitas vezes diminuir a qualidade do serviço. Quando ingressamos neste curso de seis anos adquirimos diversos conhecimentos e responsabilidades que devem ser valorizados. Para isso é necessário um papel ativo na resolução deste problema, mas acima de tudo um espírito de união dentro da classe e respeito pelos restantes médicos veterinários, alguns dos quais colegas e amigos.

Todas as crises ao longo de tempo tendem a elevar o melhor e o pior das sociedades. Até ao momento podem observar-se muitos aspetos negativos e vergonhosos, mas poderão surgir também aspetos positivos. Penso que o principal seria a união da nossa classe nesta época tão difícil, de forma a lutar pelos nossos direitos. Medicina Veterinária é um dos muitos cursos importantes no Mundo, e se não existissem profissionais nesta área, quase tudo pararia na nossa sociedade, desde matadouros a supermercados, lotas a clínicas de pequenos animais, coudelarias a laboratórios e assim por diante. É necessário defender o nosso trabalho, mas também assegurar vagas de emprego. Mas este é apenas mais um artigo de opinião. Não pretende encontrar soluções definitivas para este problema, nem acusar qualquer entidade ou órgão desta situação, até porque o desemprego é uma junção de diversos fatores. O objetivo deste texto é fazer uma reflexão acerca deste assunto. Se cada um de nós se questionar acerca da situação atual, das suas causas, e possíveis formas de resolução, o objetivo será alcançado. Não podemos nunca “enterrar a cabeça na areia” face às dificuldades, porque mais cedo ou mais tarde elas acabarão por nos alcançar ou às pessoas próximas de nós.

*Aluna 6º ano do Mestrado Integrado em Medicina Veterinária do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar - Universidade do Porto

Outras publicações do Grupo